Two Of Us – Tudo Entre Nós (2000)

Um cult movie para beatlemaníaco algum botar defeito está nas locadoras de todo o país. É o Two of Us, cujo título em português virou Tudo Entre Nós. Trata-se de uma homenagem a John Lennon & Paul McCartney que pode ser convencionada como livre exercício de imaginação (ou, quem sabe, delírio mesmo) a partir de um fato concreto – um Sábado, 24 de abril de 1976.

Naquela ocasião, o canal NBC exibia o programa Saturday Night Live. O apresentador, Lorne Michaels informou que 22 milhões de pessoas estavam assistindo. Era a época em que se comentava a oferta milionária do promoter Sid Bernstein, em trazer de volta os BEATLES para um único concerto, e prontamente recusada pelos quatro.

Aproveitando-se dessa situação, Lorne Michaels promoveu uma brincadeira que entraria para a história: comentou que adoraria ver reunidos, John, Paul, George e Ringo. Disse que os Fab four eram o que de melhor a música havia produzido. Ato contínuo, lança um desafio. “Se o problema de vocês é dinheiro, a NBC acaba de me autorizar a liberar um cheque nominal em favor dos BEATLES no valor de 3 mil dólares. Venham buscar. Vocês tem até o final do show para decidir. Cantem “She Loves You”, e levem mil dólares. Três canções, e terão 3 mil dólares”.

Lorne Michaels não imaginava que entre seus 22 milhões de espectadores estavam John Lennon & Paul McCartney! Paul & Linda visitavam John & Yoko naquela noite, no Dakota. Jantaram, conversaram, ouviram música. Falaram dos velhos e dos novos tempos. Acabaram assistindo deliciados a inusitada proposta de Michaels pela TV. Chegaram de fato a cogitar uma esticada até os estúdios da NBC somente para criar um inesperado contraponto à brincadeira – mas, de acordo com John, desistiram porque se encontravam muito cansados.

As semelhanças do fato concreto com a livre imaginação de Two of Us terminam aí. E talvez por isso o filme seja desconcertante. A lente certeira de Michael Lindsay-Hogg, diretor do projeto Get Back/Let it Be, representou luxuoso auxílio para a idéia desenvolvida. Lindsay Hogg conheceu suficientemente os BEATLES para estudar-lhes os gestos, dirigindo com precisão os atores. Perder tempo com as inevitáveis comparações da semelhança dos artistas com os personagens reais é bobagem. Não é essa a proposta do filme. A inspiração é puramente comportamental.

Também funcionou a direção de fotografia, recriando ambientes como o apartamento de Lennon, além de detalhes e figurinos de época. Entretanto, o permanente estado de tensão e desafio entre Lennon & McCartney é que de fato motiva. Era daquele jeito mesmo? Como iremos saber? Imaginamos, apenas. Two of Us também acerta ao posicionar John Lennon como alguém muito dependente do amor ou da tirania de Yoko Ono. A direção firme, todavia, impede que a película escorregue para a pieguice, e tenta o tempo todo focalizar John e Paul por trás da fama – como seres humanos sem máscaras, e agindo sem as amarras dos holofotes e o fardo de serem ídolos em tempo integral.

Como as participações de Linda & Yoko foram convenientemente limitadas a telefonemas (afinal o filme é exercício de imaginação), sobrou permissividade para que dois velhos parceiros pudessem conversar, brincar, acentuar diferenças, brigar de novo, e até passearem disfarçados pelo Central Park. Two of us também é feliz ao deixar latente que John era John e Paul era Paul em 1976 – cada qual com sua vida, carreiras individuais e transparecendo da necessidade de dividir outra vez uns acordes, alguns riffs, uma estrofe, um verso, um refrão. Não houve tempo nem clima para isso, só uma quase incontida vontade. O filme é muito daquilo que quem estuda os BEATLES à fundo, acha. Por isso é tão bom e merece ser reservado na locadora da esquina.

No dia seguinte ao encontro verdadeiro – não mostrado no filme – Paul volta ao Dakota com uma guitarra debaixo do braço. Foi movido provavelmente pela agradável noite anterior, mas deu-se mal. Foi rechaçado por um John Lennon duro e que, sem meias palavras, disse: “não estamos mais em 1956. Eu cresci. Tenho um filho para cuidar. Quando quiser vir, pelo menos telefone antes”. Macca entendeu o recado e partiu. Em 26 de abril de 1976 começaram ensaios para a consagradora turnê americana dos Wings. Os dois maiores parceiros da história do rock nunca mais se dariam outra chance de algo parecido com um filme como Two of Us. Que pena!

Por Claudio Teran

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