George e nós

Muita gente vai passar as próximas semanas escrevendo sobre George. Mas duvido que alguém consiga reunir em poucas linhas, um texto tão brilhante quanto esse, do Flávio Gomes. É jornalista e escreve sobre Fórmula 1, uma das paixões do beatle. Boa leitura.

Quando os Beatles se separaram, em 1970, eu tinha seis anos e as únicas músicas que conhecia falavam sobre formigas, cigarras, cabritos e lobos maus. Foi muito depois disso que vim a ter idéia do que eram os quatro de Liverpool, e devo ter escutado muita coisa, sons que ficaram muito bem arquivados em algum canto da minha memória. Não há música dos Beatles que eu não saiba de cor, ou quase, embora não tenha sequer o hábito de ouvir música. Acho que todos nós, que passamos dos 30, em algum momento fomos impregnados por suas guitarras chorando gentilmente.

Nunca haverá algo parecido na história musical do planeta. Nunca mais uma banda vai conseguir revolucionar tanto os costumes, as idéias, o comportamento e os sentimentos de tanta gente. Mas soa ridículo um zé-ninguém como eu escrever sobre os Beatles. Tudo já foi escrito sobre eles e tudo será escrito de novo depois da morte do único Beatle que conheci, George.

Ter conhecido um Beatle é certamente a nota mais honrosa de minha paupérrima biografia. E quando digo que o conheci, estou evidentemente exagerando, quase mentindo. Uso conhecer como sinônimo de ver, o que é uma distorção inaceitável do sentido das palavras.

Mas, para mim, ter trocado olhares com George uma meia-dúzia de vezes nestes anos todos de F-1 basta. Quando ia a autódromos, George sempre dava uma passada na McLaren ou na Jordan, e eu, de vez em quando, também frequentava os mesmos motorhomes por razões profissionais. Um dia disse “hello” a ele, que respondeu sorrindo. Foi o diálogo mais marcante da minha vida. Envergonhado que sou, nunca tive coragem de lhe pedir um autógrafo, ou uma foto. Não me arrependo. A mim, de novo, basta tê-lo visto de perto, ter dito “hello”. Nunca vi ou cheguei perto de alguém tão importante na vida e, de novo, a mim basta. Bastou.

Metade das pessoas realmente valiosas que habitaram este mundo já se foi, George e John. Foram os habitantes mais exuberantes da década mais rica da história da humanidade. Restam Paul e Ringo. Diante do que eles fizeram em menos de dez anos como banda, qualquer outra realização humana me parece desprovida de qualquer significado. Nada pode ser mais magnânimo que ouvir os versos de “Let it Be”, ou de “Here Comes the Sun”, ou de”Yesterday”, “Something”, “Love me Do”, “Eight Days a Week”, todas elas, cada nota, cada acorde, cada palavra.

George amava os motores e os carros, o que de certa forma nos aproximava, fazia com que algumas vezes frequentássemos o mesmo ponto do universo. Mas o universo de um Beatle é infinitamente maior que o de um escrevinhador que acompanha corridas. E estar perto de um Beatle é ter a chance, que eu tive, de compreender a própria pequenez e insignificância. Pequenos e insignificantes que somos, curvemo-nos a George Harrison, que se foi rápido demais. Tudo tem ido rápido demais.

Por Flávio Gomes

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