Entrevista: Rod Davis (The Quarrymen)

Em uma entrevista exclusiva, feita por email, falei com Rod Davis, um dos membros originais da banda The Quarrymen – a banda onde John Lennon tocou antes dos Beatles. Rod esteve presente naquele famoso show em que John e Paul se conheceram. Ele fala sobre a época do Quarrymen, a Beatlemania, o novo CD “The John Lennon’s Original Quarrymen Get Back Together” e o novo livro de Hunter Davies: “The Quarrymen: A Biography Of The Band That Started The Beatles”.

Vitor Suman – Olá, Rod. Fale sobre você.
Rod Davis – Olá, meu nome é Rod Davis, tenho 60 anos agora. Nasci em 7 de Novembro de 1941, no Sefton General Hospital. Meus pais moravam perto de Woolton, e nos domingos, mais ou menos com 5 anos, eu ia à Escola Dominical na St. Peter’s Church (Nota Ed: igreja em que o Quarrymen tocava quando John e Paul se conheceram). Outros garotos na minha classe eram Pete Shotton, Nigel Whalley, Ivan Vaughan, Geoff Rhind (que tirou a famosa foto!!!) e cerca de um ano depois John Lennon se juntou a nós. Aos 11 anos eu fui estudar na Quarry Bank High School, junto com, John, Pete e Geoff. Lá conheci Eric Griffiths.

Quem o chamou pra entrar na banda? E por que você aceitou?
Por volta de 1956 eu comprei um banjo e falei pro Eric. Ele me perguntou se eu queria entrar na banda com ele, Pete, John e um baixista chamado Bill Smith. Estávamos tão empolgados com o skiffle, e Lonnie Donnegan principalmente, e todos queriam estar numa banda. Logo depois Bill Smith nos deixou, então Colin Hanton e Len Garry entraram.

Você tocou no show em que John e Paul se conheceram. Você estava no “backstage” quando eles foram apresentados?
Embora eu me lembre muito bem desse show, eu não me lembro de ter conhecido Paul…eu já conhecia Ivan Vaughan por quase dez anos, e se Paul estava com ele com certeza eu o conheci naquela tarde, mas não me lembro de nada!

Você entrou na banda quando ainda chamavam-se “The Black Jacks”. Você participou da mudança para “The Quarrymen”?
Eu acho que quando eu entrei eles se chamavam “Blackjacks”, mas logo se tornou Quarrymen, por causa do hino da escola, e eu não me lembro da discussão ou da sugestão de mudar o nome. Pete acha que foi idéia dele.

Qual era o repertório? Em que ele era baseado, que músicas você se lembra de tocar?
A gente tocava muito skiffle, “Freight Train”, “Cumberland Gap”, “Midnight Special”, “Rock Island Line”, “Lost John”, “Bring A Little Water Sylvie”, “Don’t You Rock Me Daddy’O”, “Worried Man Blues”, “Pick A Bale of Cotton”, “Mama Don’t Allow”… todo o repertório de Donnegan e um pouco de Rock and Roll. Todas as músicas do nosso CD (visite o meu site para mais detalhes) pertenciam ao repertório de 1957.

Quando você deixou a banda? Você tocou em outras bandas, antes e depois?
Não, nunca toquei numa banda antes do Quarrymen. Mas eu estudei piano por três anos, e na escola aprendi a tocar alguma coisa…gostava muito do Jazz de New Orleans.

No final de Julho de 1957 a maioria do grupo deixou a escola, mas eu continuei pois queria entrar pra universidade. E foi aí que eu quis sair do grupo. Não me mandaram embora, apenas saí. Paul entrou no meu lugar. Eles estavam se tornando uma banda de rock, e um banjo não se encaixava mais.

Meu irmão e eu vendemos nosso ferrorama e compramos uma guitarra, que eu rapidamente aprendi a tocar. Então eu fui tocar num Jazz Trio da Quarry Bank. Era uma guitarra acústica, então eu colei um microfone nela e liguei num rádio antigo, o que funcionou como amplificador.

Em 1960 eu fui para a Universidade de Cambridge para estudar francês e espanhol. Lá eu me interessei pela música folk inglesa e americana, especialmente bluegrass (???). Eu aprendi a tocar guitarra no estilo bluegrass, bandolim e toquei em várias bandas de Jazz, inclusive, uma delas gravou um disco pela Decca em 1961. Em 1963 eu fui pra Bavaria, na Alemanha, para ser professor de inglês. Lá eu tocava banjo numa banda de Jazz toda sexta-feira à noite.

Nos anos 60, quando a beatlemania estourou, como você viu isso? Você sabia, de algum jeito, que aquele seu amigo John seria um sucesso?
A última vez que eu encontrei John foi em Abril de 1962, em Liverpool e ele me perguntou se eu queria tocar bateria para ir à Hamburgo com eles. É claro que eu não aceitei, pois ainda tinha um ano do meu curso pra fazer. Como eu disse, eu estava na Bavaria entre Outubro de 1963 e Agosto de 1964 e lá ninguém ouvia falar dos Beatles, então eu perdi o estouro da Beatlemania. Eu nunca esperei que John fosse um sucesso musical, nós só queríamos nos divertir. Ele não sabia tocar guitarra muito bem, mas sabia cantar, e conseguia segurar o público. O talento dele, quando era adolescente, era realmente os seus desenhos…eram muito bem feitos e engraçados. Quanto ao sucesso deles, eu fiquei muito feliz que um velho amigo meu, e mais alguns garotos pobres de Liverpool mostraram ao mundo que não precisava ser de Londres, ou dos EUA para fazer sucesso.

Você sempre foi um músico? Ou seguiu carreira em outra profissão?
Sempre fui músico, mas nunca ganhei a vida com isso. Toquei numa banda de Bluegrass em Liverpool entre 64-68, e também toquei música tradicional irlandes, durante esse tempo. Em 1968 eu deixei Liverpool e fui trabalhar numa indústria de viagens, como motorista, e eu levava as pessoas para acampar na Rússia, Turquia, Romênia e Grécia. Fiquei um bom tempo sem tocar, mas no começo dos anos 70 começei a me envolver com o Bluegrass em Londres e voltei a tocar muito bandolim. Meus filhos nasceram nos anos 70, e eu achei melhor trabalhar atrás de ua mesa, organizando viagens à França e não toquei muita coisa.

Me separei da minha mulher em 1981, e fui viver com minha irmã. Juntos tocamos em várias bandas, The Armadilloes, uma banda texana de bluegrass e também os Bluegrass Ramblers. Minha irmã toca baixo, canta, toca harpa, guitarra, compõe e faz sapateado! (Meu irmão, que ainda vive em Liverpool é um ótimo guitarrista). Desde 1986 eu venho ensinando turismo e marketing, embora eu esteja meio aposentado desde 1996. Nos últimos cinco anos eu venho tocando com um ótimo guitarrista de Jazz e Country, chamado Doug Turner e ele me ensinou como tocar guitarra rítmica no jazz – visite o meu site para mais detalhes!

Eu vi que foi lançado um novo livro de Hunter Davies (que eu ainda não tenho). Você acha que é um complemento aos fãs dos Beatles?
Nós conhecemos Hunter Davies em Cuba, numa BeatleFest em Havana, há alguns anos atrás. Nós mantivemos contato, e Hunter teve a idéia de escrever uma biografia do Quarrymen, como uma continuação da biografia dos Beatles. Nós demos a ele toda a ajuda que precisou, e estamos bem felizes com o resultado. Esperamos que os fãs gostem!

Vamos falar dos novos Quarrymen. Quando foi que vocês decidiram voltar a tocar juntos?
Todos nós nos encontramos, depois de 40 anos, em Janeiro de 1997, quando o Cavern nos convidou para o 40º Aniversário.

De quem foi a idéia? E por quê?
Eu sempre esperei que nos encontraríamos novamente, não necessariamente pra tocar. O Cavern já havia me convidado, junto com Len (Garry) e Pete (Shotton), eu acho que (John) “Duff” Lowe, e eu os dei os endereços de Eric (Griffiths) e Colin (Hanton). Porquê? Uma bebedeira grátis no Cavern! À tarde, depois de um dia de cerveja de graça (embora eu estivesse dirigindo) nós fomos convidados para subir ao palco e tocar algumas músicas para um programa de TV. Felizmente a platéia também já estava bêbada! Como resultado, fomos chamados, por muitos fãs dos Beatles a recriar o dia em que John conheceu Paul na Woolton Village, isso em Julho de 1997. A Igreja precisava de uma grande reforma. Nós fomos muito bem, e fizemos o “Get Back Together”, e aí coisas começaram a acontecer.

No álbum, “Open For Engagements” (lançado em Dezembro de 1995) o Quarrymen toca bastante material original/inédito. Mas haviam membros na banda que não eram/foram da formação original (Charles Hart, John Ozoroff, Richie Gould). De onde vieram eles?
Em 1992 John Lowe, que eu não conhecia do Quarrymen, pois ele entrou bem depois de minha saída, chamou Len Garry e eu, para saber se estaríamos interessados em juntar uma banda, e lançar um CD, sob o nome de The Quarrymen. Nós estávamos, mas Eric Griffiths e Colin Hanton não, e eu nem consegui encontrar Pete Shotton. Os outros músicos eram de uma banda na qual John Lowe estava tocando na época.

Na verdade, nós realmente gravamos um disco! Mas o homem que nos gravou desapareceu, e o CD nunca foi lançado. John Lowe tentou novamente mais ou menos um ano depois, mas o estúdio havia fechado, e as fitas sumiram. Ele tentou uma terceira vez, dessa vez sem Len Garry, apenas eu e o resto da banda, e o “Open For Engagements” foi o resultado.

Nesse álbum há uma canção chamada “John Winston”. É um tipo de tributo à John?
Sim, foi escrita por John Ozoroff. Embora eu sempre soube que John detestava ser chamado de Winston.

O Quarrymen estará se apresentando na Itália e Alemanha esse ano. Há planos de uma turnê européia?
Nós não estamos realmente disponíveis para fazer uma turnê, por causa de nossos empregos aqui na Inglaterra, mas podemos reservar um fim de semana, ou até uma semana inteira, sem causar grandes problemas.

Vocês também passaram pelos EUA e Canadá entre 1999/2000. Como foi fazer show na América?
Nós fomos aos EUA cinco vezes. Duas em 1998, na costa Oeste e Chicago, depois em Vegas, Canadá, Orlando e New Jersey. Nos divertimos muito em nossas viagens transatlânticas – também estivemos em Cuba – os fas dos Beatles sabem mais sobre nós do que nós mesmos! Eles pareciam apreciar o fato de ainda estarmos vivos (!) e eles puderam ouvir como soávamos em 1957, enquanto tocávamos músicas que tocávamos com John e Paul.

Tem alguma mensagem aos leitores brasileiros?
Espero que vocês tenham gostado de ouvir sobre o Quarrymen. É ótimo saber que há interessados em nós. Talvez algum dia a gente vá tocar no Brasil – seria uma grande experiência para quatro velhinhos! Não esqueçam de dar uma olhada no meu site, em http://www.scorpweb.co.uk onde poderá encontrar muita informação sobre os Quarrymen!

Datas de shows do Quarrymen em 2002
08 de Junho – Brescia, Itália.
19 de Julho – Berlim, Alemanha.
21 de Julho – Berlim, Alemanha.

Site Oficial
http://www.quarrymen.co.uk

Entrevista feita por Vitor Suman, entre 19 de Abril e 30 de Maio de 2002

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