Entrevista: Aramis Barros, da banda Os Canibais

Além de atuar na garage band pioneira, Os Canibais, Aramis Barros também está investindo na criação do The Cavern Brasil.

Vocês iniciaram com um compacto com duas músicas dos Beatles. Você pode falar sobre a influência deles na sua vida?
Eu devo tudo na minha vida profissional aos Beatles. Nós entramos na música há cerca de 40 anos atrás por causa deles e seguimos trabalhando posteriormente nesta carreira.

Por volta de 63/64, a gente aqui ainda não sabia muito sobre o que já estava acontecendo na Europa. Nós já curtíamos rock e guitarras, mas os Beatles ainda estavam entrando nos EEUU e ainda não tínhamos acesso aos lançamentos europeus, que vinham através dos EEUU… Nós gostávamos da música instrumental dos Ventures, Shadows, Duane Eddy e aqui no Brasil: The Jet Blacks, The Jordans e The Clevers (Os Incríveis). Claro que já curtíamos Neil Sedaka, Paul Anka, Bill Haley, Chuck Berry, Little Richard, Elvis, April Stevens etc… mas aquilo pra nós já estava ficando meio “careta”, muito “lamê”…

Aí aparece uma reportagem no Globo de quatro caras que estavam arrebentando na Europa e invadindo os EEUU… foi a gota d’água! Nós vimos que uma banda alem de tocar guitarras, podia cantar, vocalizar, compor, vestir roupas mais interessantes, cabelos grandes, botas… foi tudo! “I Want To Hold Your Hand” pegou a minha geração pelos ouvidos, olhos, mente e coração! Durante aqueles anos, tocamos todos (todos mesmo!) sucessos dos Beatles. Era o Big Boy lançar na rádio Mundial e a gente gravar em cassete antes mesmo do disco ser lançado… Depois era aquela correria nas lojas!

Nunca mais me afastei da música desde então e carrego comigo o apuro técnico e musical que aprendemos ouvindo atentamente tudo o que eles lançavam, para poder tocar cada novo sucesso que aparecia. Como começamos a gravar os nossos próprios discos, acabei aprendendo os segredos das técnicas de gravação e produção artística, que nortearam minha carreira profissional.

O LP Sgt. Pepper está completando 40 anos. Você se lembra de como o descobriu o qual a sua impressão sobre ele?
Veja bem: nós não podemos dizer que “descobrimos” este LP, porque nós simplesmente vivemos cada lançamento dêles. Mas a coisa era bem mais lenta do que hoje.
Primeiro correu o boato que eles iam acabar. Mais tarde a notícia era de que eles estavam insatisfeitos com os equipamentos de palco que já não atendiam os seus shows devido à grande quantidade de fãs que gritavam o tempo todo abafando tudo o que eles tocavam ou falavam. Ainda nesta época corria o boato também da morte do Paul.

De repente o Big Boy, que tinha um dia que era só de Beatles, acaba mostrando alguma coisa. Se não me engano “Sgt Peppers” e “With a Little Help From My Friends”. QUE QUE É ISSO??? E a gente nem tinha visto ainda o trabalho de arte da capa.

Claro que quando o LP chegou às lojas, eu fui um dos primeiros a comprar. Eu lembro que uma vez nos bastidores da TV Rio, antes do programa “A Festa do Bolinha” do Jair de Taumaturgo, durante os ensaios, Os Canibais e The Sunshines conversamos muito sobre o disco e ficamos ali curtindo tudo o que já estávamos tocando do Sgt Peppers. Detalhe: nesta época não tínhamos condições técnicas nem recursos para tocar com autenticidade algumas músicas deste disco. Mas tocávamos assim mesmo! Melotron, cordas e metais viravam órgão. E a gente se virava como podia para reproduzir aqueles sons de guitarras. Mal sabíamos nós que a intenção era essa mesma. Eles fizeram um disco que nem eles mesmos poderiam tocar ao vivo.

Outro detalhe interessante (alem da novidade das letras na arte e a magnífica foto da capa) foi o acirramento dos boatos a respeito do Paul com ele de costas no centro da capa e um trecho de gravação que foi colocado no final do lado B, próximo à etiqueta do disco que só tocava um pouquinho antes de o braço do toca discos levantar. Para ouvir, você tinha que desarmar o automático, colocar a”pick-up” em cima do trechinho e rodar manualmente o disco ao contrário! A gente ouvia qualquer coisa que parecia dizer que o Paul já estava morto.

Como pintou a idéia de criar uma filial do Cavern Club no Brasil?
Eu não criei esta filial. Na verdade eu fui convidado a participar como sócio do lançamento do RIO ROCK & BLUES CLUB no centro da cidade ainda no final do ano passado. Mas para a minha surpresa e satisfação, mais tarde o Dr. Carlos Chaves que é o detentor dos diretos da marca no Brasil, se juntou ao grupo com esta proposta de abrir o Cavern também.

Recentemente você anunciou um adiamento da inauguração do Cavern Club, talvez até mudança de endereço. Algum problema específico?
Por enquanto o Cavern ainda não muda de endereço. Devido a problemas com o projeto de adaptação do espaço e de gestão administrativa, acabamos demorando mais do que prevíamos para abrir agora. Nós estaremos iniciando as obras possivelmente na próxima semana e pretendemos inaugurar o Rio Rock em agosto. Se a obra for aprovada também pelo Cavern mantemos o projeto inicial, mas se não houver consenso, abrimos em outro local.

Além do nome “Cavern Club”, que outras características dos anos 60 essa casa vai ter? Existe alguma decoração especial?
A casa não vai ter só uma característica de anos 60. Assim como o Cavern original, que revelou os Beatles e tantas outras bandas, nós pretendemos implementar um projeto de Escola do Rock e concursos de bandas de pop-rock e blues da nova geração também. Assim como já era a característica do Rio Rock na sua antiga sede da Barra da Tijuca. Também vamos oferecer palestras sobre o mundo do rock, exibições de vídeos e exposições da artistas plásticos sempre sobre o assunto pop-rock e blues de todas as gerações. A decoração reproduz as paredes de tijolos do Cavern original e o espaço será temático, com imagens, documentos, instrumentos, etc. (tipo Hard Rock).

Os Canibais sempre tiveram um som mais underground, mais roqueiro, do que a maioria dos artistas da Jovem Guarda. Você a considera como uma “banda da Jovem Guarda”?
Realmente nós vivemos um universo quase que paralelo à Jovem Guarda. Assim como Os Canibais, a Bolha, Sunshines, B. Bitles, Baobás, Beatnicks, Os Aranhas, Os Santos etc… se apresentavam nos programas da Jovem Guarda que eram os meios que tínhamos para chegar ao nosso público, mas nós não ficávamos presos a este esquema. Tanto nas TVs quanto ao vivo, a gente sempre acabava tocando o que gostávamos e que a nossa geração mais curtia. Ao vivo então, nos palcos dos clubes e casas de show o “buraco” era mais embaixo. Até inclusive realizamos o trabalho do BANGO em 70, que saiu completamente dos arranjos e melodias açucaradas da época.

Depois de muitos anos, os Canibais voltaram e estão mais ativos do que nunca. Qual a influência da Internet, principalmente do Orkut nisso?
Bem, nós fizemos um lançamento quase que caseiro. Não usamos de nenhum recurso de “marketing” das majors para a nossa divulgação e por isso o Orkut e a Internet tem sido de grande ajuda sim. Esta semana inclusive consegui abrir o nosso site: http://www.oscanibais.com.br Tem tudo lá: história, release, discografia, fotos, contatos…

Além dos Canibais (claro!), que outros artistas deverão se apresentar no espaço? Você tem uma agenda de eventos idealizada?
Ainda não existe uma previsão da agenda. Mas com certeza os covers dos Beatles e anos 60 de maneira geral, artistas e bandas novas com repertório próprio…

Além dos músicos dos Canibais, vocês sempre foram ligados à indústria fonográfica e às gravadoras. Como você analisa o avanço da pirataria? O que fazer para combatê-la?
É… não tomaram os devidos cuidados no início e agora não tem muito o que fazer. Se você pensar que tem de tudo pirata (remédios, ônibus, artigos eletrônicos, roupas, tênis, sapatos, gasolina…), fica realmente difícil de ser ver alguma luz no fim do túnel. As condições socioeconômicas da população aliadas aos preços exorbitantes de alguns lançamentos acabaram por disseminar esta cultura de não precisar comprar um CD, muitas vezes por causa de apenas um sucesso. Pode ser que no futuro haja uma volta ao princípio, quando o artista não lançava um Lp inteiro logo. Eram lançados vários compactos simples com apenas duas músicas, que eram divulgados um de cada vez durante certo período e só depois se juntavam estes lançamentos num único LP. Pode ser um caminho divulgar uma música na Internet através dos sites, até justificar o download de truetones ou posteriormente o lançamento do CD cheio.

Como está sendo aceito o disco novo, “A máquina do tempo”? Quais os planos para o futuro dos Canibais?
Temos um carinho muito especial com este trabalho porque ele significa não só a nossa volta, como também a confirmação de um longo caminho de uma grande amizade entre todos nós. O Cd tem sido muito bem aceito e temos recebido altos elogios, não só de radialistas e críticos como também do público de várias gerações. Tem sempre aquela sensação de surpresa pela jovialidade que conseguimos imprimir às nossas interpretações. Acho que conseguimos verdadeiramente a essência da idéia de “Vintage”, que foi reproduzir algo de 40 anos atrás com uma sonoridade convincente para os nossos dias. Apesar da originalidade dos arranjos mais atuais, não deixamos escapar o “clima” da nossa época. Agora nossos planos estão mais ousados. Temos várias composições prontas e planos de regravações de alguns sucessos de outras bandas nacionais que marcaram época.

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