Linda McCartney, um mito do Rock, da fotografia e da proteção aos animais

Nos anos 60, Linda era uma fotógrafa em início de carreira quando conheceu Paul McCartney, que na época já era um dos ídolos mais assediados do mundo do rock. Eles se conheceram durante uma coletiva de imprensa e ficaram juntos até 1998, quando ela morreu. Em 2004 a editora Taschen, em parceria com Paul McCartney, selecionou cerca de duzentas fotos do acervo dela no livro “Linda McCartney- Life in Photographs”. Paul fez uma bela homenagem a Linda na ocasião.  Trechos da entrevista de Linda à BBC, em 1994, que foi reproduzida em “Life in Photographs”:

Sobre aprender a tirar fotos
“A fotografia aconteceu para mim quando eu vivia no Arizona e uma amiga praticamente me obrigou a fazer um curso de fotografia para acompanhá-la. Fui a contragosto pois tinha certeza que seriam aulas chatas, cheias de técnicas sobre como manusear a câmera e etc. Ao contrário disso encontramos aulas deliciosas, passávamos horas estudando o trabalho de gente como Dorothea Lange, Ansel Adams e Walker Evans. Ainda acho que até hoje me inspiro por aquele período”.

Primeira foto marcante
Quando o Rolling Stones estava ainda no começo, buscando publicidade para o trabalho da banda, eles fizeram um show e enviaram um convite a Town & Country. Eu queria muito ir ao show, mas fiquei paralisada quando soube que iria como fotógrafa da revista. Eu tinha medo de não cumprir as expectativas. Até que cheguei à conclusão de que eu havia sido a escolha deles, então me tranquilizei e acreditei que eu faria todas as fotos que pudesse. Eu era um pouco tímida e introvertida, mas através das minhas lentes eu esquecia disso e conseguia realmente ver a vida. Quando entendi isso, a fotografia mudou minha vida. É por isso que aquela oportunidade não foi marcante apenas por causa do Rolling Stones e sim por causa da situação toda”.

Sobre astros do rock
“Jimi Hendrix era sensível e muito, muito inseguro. Ele fazia aquelas coisas como queimar bandeira, tocar guitarra com os dentes e etc, mas uma vez me confessou que detestava fazer aquelas coisas. Jimi era o guitarrista mais inovador do mundo, mas acreditava que as pessoas iam assisti-lo apenas para ver aquele tipo de cena.”

“Eu não tinha ideia que estava fotografando futuros ícones, mas eu já amava a música de Jim Morrison. Eu o adorava como pessoas, aliás eu adorava todo o The Doors. A verdade é que o The Doors nunca foi popular até Jim morrer. Por isso ao assistir o filme [The Doors, 1991, de Oliver Stone] eu não consegui entender de onde saiu toda aquela histeria em torno da banda. Jim era um poeta, não um objeto sexual.”

“Janis Joplin não era uma mulher bonita e tinha consciência disso. Lembro de um dia estar com ela em Los Angeles e Janis bebeu uma garrafa de uísque para conseguir entrar no palco. Simplesmente para ter confiança de que ela entraria lá e teria algo dela para dar ao público”.

Encontro com os Beatles
”Quando eu vim para a Inglaterra queria fotografar os Beatles e Stevie Winwood, que estava tocando em uma banda chamada Traffic. Mostrei meu portfólio ao assistente de Brain Epstein [na época, empresário dos Beatles], que dois ou três dias veio com a resposta: “Ok, Brian amou suas fotos.” Eles estavam lançando o álbum “Sergeant Pepper” e iam fazer uma coletiva de imprensa para divulgá-lo, onde eu poderia me credenciar como fotógrafa. Eu estava nervosa no dia da foto, principalmente porque havia outros fotógrafos lá. No fim, eu não fiquei satisfeita com as imagens que consegui, exceto por uma em que John e Paul aparecem com os polegares para cima. É uma foto que ninguém tem. Quando eu casei com Paul ninguém sabia que eu era fotógrafa. Para os fãs eu era apenas uma “americana divorciada”.

O que eles dizem sobre Linda

Paul McCartney, músico
“A diferença entre Linda e outros fotógrafos que foram seus contemporâneos é que ela sabia sobre quem estava fotografando. Enquanto isso, outros tinham que perguntar “Quem é o vocalista da banda?” ou “Que banda é essa mesmo?”. Linda era a mais tranqüila das fotógrafas para se trabalhar com ela e só por causa de sua tranqüilidade ela conseguia tanta transparência em suas fotos. Sinceramente, ao responder a pergunta ‘Qual fotógrafo cobriu melhor o cenário da música nos anos 60?’, não consigo lembrar de ninguém que tenha um trabalho tão abrangente e tenha capturado tanto a essência daquela época como Linda. Na vida pessoal, ela era doce, engraçada, muito leal e superprotetora com a família. Seu senso de humor estava em tudo que ela fazia”.

Stella McCartney, estilista
“Minha mãe me apresentou a muitas coisas, mas o seu jeito honesto e natural de viver a vida foi provavelmente a maior lição. E ela imprimia isso em suas fotos. Quando eu era criança ela capturou momentos que podiam facilmente passar em branco. Minhas memórias mais antigas dela são com uma câmera nas mãos. Como aconteceu durante uma viagem em que percorremos a Escócia de carro e que, com os vidros do carro abaixados, ela ia clicando o mundo ao redor. Ela clicava apenas uma vez e sentia que tinha conseguido a foto que queria. Ela foi uma das raras mulheres fotógrafas de sua geração, algo pelo qual raramente é reconhecida. Suas fotos preencheram os primeiras edições da Rolling Stones: Janes Joplin com um sorriso aberto, Neil Young jovem e inocente… Umas minhas fotos favoritas é aquela em que ela flagrou uma mamadeira ao lado de uma garrafa uísque. Não só é engraçada como resume uma era perdida do rock´n´roll. Como estilista, eu ainda me pego inspirada por fotografias como as publicadas nesse livro. O meu pai descalço com as unhas dos pés pintadas cada uma de uma cor; roqueiros com ternos feitos por alfaiates da Savile Row [tradicional rua de Londres conhecida por suas refinadas alfaiataria] combinado com meias esquisitas… Enfim, rostos inocente prontos para dominar o mundo. Há tantas outras fotografias dela que ficaram de fora desse livro, embora aqui esteja o começo de uma iniciativa que pretende mostrar o mundo que ela via com seus olhos. Esse livro é um tributo à alma de seu trabalho e eu tenho muito orgulho disso.”

Annie Leibovitz, fotógrafa
“Ela era muito jovem quando começou a fotografar ou, pelo menos, quando as pessoas começaram a notar seu trabalho. Era também bonita, esperta e sofisticada. Vê-se que nessas primeiras fotos que ela fez de bandas, os músicos não estão olhando para a fotógrafa. Eles estão, na verdade, apaixonados pela moça que segura a câmera. Estão flertando. Nos anos 70 eu estava fotografando a Wings para a Rolling Stone, quando encontrei Paul, Linda e dois de seus filhos. Stella, que na época tinha quatro ou cinco anos, pegou a câmera da mão da mãe, afastou-se, posicionou-se e fez o retrato da família. Ela imitava os mesmo gestos que Linda fazia ao fotografar – e que já devia tê-la visto repetindo milhares de vezes. A “particularidade” de suas fotos ficou ainda mais evidente no fim de sua vida, quando ela provavelmente já sabia que iria partir. Eram imagens puras, simples. Como se ela estivesse usando a fotografia para permanecer no mundo. Como todos nós, fotógrafos, fazemos. A fotografia nos dá a segurança de que não seremos esquecidos. As fotos delas, por fim, são a prova de sua bem vivida vida. Como mulher e como artista”.

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