A briga entre John Lennon e Todd Rundgren

Em 1974, Todd Rundgren desfrutava da fama. Seus trabalhos com sua banda original, Nazz (nome tirado de uma música dos Yardbirds), fortemente influenciados por Beatles, Stones e pela sonoridade pop/rock britânica, haviam sido bem recebidos – uma música palatável, que teve como principais sucessos “Hello, it’s me” e “I saw the light”.

Em 1974, Rundgren acabava de lançar seu primeiro álbum solo, intitulado Todd. Elogiado pela mídia principalmente devido a sua múltipla atuação (Todd cantava, tocava diversos instrumentos e produzia seus álbums, bem como o de outros artistas – chegou mesmo a trabalhar com Badfinger, na produção do álbum “Straight Up”) e adorado pelos fãs, o cantor começou a adotar uma postura mais agressiva e supostamente rebelde – pintou seu cabelo em um monte de cores diferentes, fazia performances extravagantes em seus shows, e suas músicas passaram a flertar com o rock progressivo e com sonoridades experimentais. A experimentação durou por pouco mais de 2 anos – em 1976, Rundgren já voltava ao rock, tendo inclusive regravado “Strawberry Fields Forever” em seu álbum “Faithful”, cuja capa as más línguas diziam imitar a do Álbum Branco.

Mas, voltando a 1974… Como parte da postura “bad boy”, Todd resolveu “chutar o pau da barraca” numa entrevista a revista Melody Maker, em fevereiro de 1974. A reportagem começava com Rundgren detonando John Lennon – que ele dizia não ser “um revolucionário”, mas sim “um idiota”. “Tudo o que ele quer é chamar a atenção para ele, e se a revolução lhe der essa atenção, então ele vai ter atenção através disso”, dizia Todd. E completava: “Bater numa garçonete no Troubador – que tipo de revolução é essa?”. Para piorar, Rundgren comparava John ao presidente americano Richard Nixon: “[Lennon] é uma figura importante, é claro. Mas Richard Nixon também era. Nixon era como o John Lennon de uma outra geração. Alguém que representava todo tipo de ideais, mas que, na verdade, só queria se promover”.

Como se não bastasse, Todd Rundgren ainda soltou um veneno sobre os Beatles, quando falava de sua primeira banda, Nazz: “Os Beatles não tinham outro estilo além de ser os Beatles. A Nazz fazia rock pesado e também baladas leves e bonitas, e baladas complexas. E naquela época, isso era algo que as pessoas não faziam”. (Tá bom, Todd…) Além disso, quando perguntado sobre a contribuição do rock’n’roll para a Revolução, ele espetou John Lennon mais uma vez, dizendo que muitos só visualizavam isso “de uma forma muito óbvia”. E fecha a tampa com sua opinião a respeito da violência: “Você tem que entender a violência para fazer uso adequado dela. (…) Algo acontece, e as pessoas sentem um impulso de violência. Isso é porque elas não entendem a violência. Não entendem seu uso, desuso ou mal uso. No fim das contas, não há bom ou mau, mas há coisas desejáveis e indesejáveis. Todas as coisas têm sua função, e a violência tem seu lugar”.

As declarações espalhafatosas de Todd Rundgren levaram John Lennon a redigir uma resposta, publicada também na Melody Maker. Com seu estilo sarcástico e ácido, numa carta intitulada “An open lettuce to Sodd Runtlestuntle”, John rebatia as opiniões de Rundgren, chamando o cara de Sodd, Dodd e Rodd (e até mesmo de Turd – que significa cocô – e Godd, trocadilhos no melhor estilo “lennoniano”), zoando o cabelo colorido… até terminar em grande estilo, não falando em violência, mas sim com uma “declaração de amor” a Todd. Na tradução, um pouco do humor incisivo se perde, mas era algo assim:

ALFACE ABERTA A SODD RUNTLESTUNTLE.
(do dr. winston o’boogie)

Não pude resistir em acrescentar algumas “ilhas de verdade”, em resposta ao gemido de ódio (dor) de Turd Runtgreen.

Querido Todd,
Eu gosto de você, e de alguma coisa do seu trabalho, inclusive “I Saw The Light”, que não é muito diferente de “There’s A Place” (Beatles), em termos de melodia.

1) Eu nunca disser ser um revolucionário. Mas posso cantar sobre o quer que eu quiser! Certo?

2) Eu nunca bati numa garçonete no Troubador. Mas eu realmente agi como um idiota, eu estava muito bêbado. Então, shoot me!

3) Acho que todos procuramos atenção, Rodd. Você realmente acha que eu não sei atrair atenção sem “revolução”? Eu poderia tingir meu cabelo de verde e rosa, só para começar!

4) Eu não represento ninguém, a não ser a mim mesmo. Parece que eu representava algo para você, ou você não seria tão violento comigo. (Seu pai talvez?)

5) Sim, Dodd, a violência vem por caminhos misteriosos, (…) inclusive verbais. Mas você conhece esse tipo de jogo mental, não é? É claro que sim.

6) Então a Nazz fazia “rock pesado” e então DE REPENTE uma “balada leve e bonita”. Que original!

7) O que me leva aos Beatles, que “não tinham outro estilo além de ser os Beatles”!! Isso cobre muitos estilos, cara, inclusive o seu, ATÉ HOJE… Sim, Godd, a coisa que aqueles Beatles realmente fizeram foi afetar as MENTES DAS PESSOAS. Talvez você precise de mais uma dose? Alguém me mostrou sua música – rock and roll pussy song, mas eu nunca notei nada. Acho que o motivo de você estar p… comigo é que eu não sabia quem você era no Rainbow, em Los Angeles. Lembra daquela vez em que você veio com Wolfman Jack? Mais tarde, quando eu descobri, eu praguejei porque queria te dizer o quanto você era bom. (Eu tinha escutado no rádio.) De qualquer forma, não importa o quanto você me magoe, querido, eu sempre amarei você,

J. L.
30 de setembro de 1974

PS: A única coisa triste nisso tudo é que há quem diga que essa troca de farpas entre Rundgren e Lennon pode ter contribuído para a atitude demente de um jovem americano, fã obcecado de Todd, que em 8 de dezembro de 1980 dirigiu-se ao Edifício Dakota para pôr fim brutal ao sonho de uma geração.

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