Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Resonet Futurama

Em 1959 o embargo britânico sobre produtos americanos ainda vigorava e marcas como Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker eram impossíveis de se conseguir no Reino Unido. A maioria dos jovens guitarristas sonhava com instrumentos inalcançáveis. George Harrison, na adolescência, sonhava acordado com guitarras, desenhando-as nos cadernos da escola e estudando as capas dos discos de seus ídolos.

A Futurama era o mais próximo que, nessa época, na Grã Bretanha, um guitarrista conseguiria chegar da mais desejada guitarra da época: a Fender Stratocaster. Desde 1958 os guitarristas britânicos estiveram olhando a capa de um disco de Buddy Holly cobiçando a guitarra brilhante, futurista, com três captadores, que aparecia nela. George Harrison era um deles.

“Se fosse do jeito que eu queria, a “Strat” (Fender Stratocaster) teria sido a minha primeira guitarra. Eu tinha visto a Strat de Buddy Holly na capa dp álbum “Chirping Crickets” e tentei achar uma. Mas em Liverpool, nesses dias, a única coisa que pude encontrar que lembrasse uma Strat foi uma Futurama. Era muito difícil de tocar, as cordas ficavam a mais ou menos meia polegada da escala. Mas apesar disso ela realmente parecia algo futurista”, disse George.

Em 20 de novembro de 1959, George Harrison e Paul McCartney foram à loja de instrumentos de Frank Hessy.

“Paul estava comigo quando comprei a Futurama. Ela estava pendurada na parede com todas as outras guitarras e Paul a plugou num amplificador mas nenhum som saiu dela. Então aumentou o volume do amplificador ao máximo. A guitarra tinha três chaves oscilantes e quando acionei uma delas um poderoso “boom” saiu do amplificador e todas as outras guitarras caíram da parede. Minha mãe assinou a compra a prazo por mim, o que significava uma libra agora e o resto quando te pegarem”.

A Cooperativa Drevokov

Anos antes, em 1953, em Blatna, Checoslováquia, hoje República Checa, a Cooperativa Drevokov – uma empresa estatal especializada em produzir lambris, móveis, cabides e outros produtos de madeira – recebia um novo gerente: Josef Ruzicka, um homem com inclinações musicais. Por sua decisão a companhia começou a experimentar a produção de instrumentos musicais e em 1954 ele e o designer Vlcek lançaram o primeiro instrumento elétrico da empresa. Era uma guitarra estilo havaiana que ostentava a marca “Resonet”. O modelo era chamado de “Akord” e a “Resonet Akord” marcou o início da manufatura de guitarras elétricas na Checoslováquia.

Resonet foi o nome que a Drevokov usou para todos os seus instrumentos elétricos. Apesar de ainda fazerem confusão não existe uma empresa Resonet, esse nome é só uma marca. No cartão de garantia havia a frase: “Resonet: a marca dos primeiros instrumentos eletrofônicos checoslovacos”.

A Resonet Grazioso 

A Resonet Akord se mostrou muito popular e no ano seguinte a Drevokov decidiu fabricar uma guitarra elétrica, instrumento que se popularizava rapidamente. A inspiração para esse projeto foi uma Fender Stratocaster 1955 trazida dos EUA. Entretanto, ao invés de copiá-la, eles a examinaram cuidadosamente e a redesenharam completamente. De fato, várias funções da Stratocaster foram aperfeiçoadas, particularmente a parte elétrica e o trêmolo.

A nova Resonet tinha interruptores oscilantes para a seleção de captadores que permitiam sete combinações (oito se considerarmos a guitarra sem emitir som) ou seja, sete timbres diferentes. Isso estava muito à frente da Stratocaster, que naquela época só permitia três. Ela também tinha um controle de tom “master”, que atuava em todos os captadores – a Stratocaster não tinha um controle desses para o captador da ponte. A pestana era uma peça totalmente inovadora integrando as guias e o apoio das cordas. Esse sitema foi muito usado por luthiers independentes nos anos 80 e ainda é utilizado por alguns. Os captadores tinham polos com ajustes individuais que não existiam na Stratocaster. O suporte do jack de saída era praticamente idêntico ao do instrumento da Fender.

O trêmolo foi um projeto totalmente novo e tornou-se um mecanismo muito sofisticado. Nada disponível no mundo se aproximava da excelência da engenharia desse dispositivo. Muito mais avançado que o da Fender, pivotava em dois pilares – como seriam os Floyd Rose bem mais tarde – e tinha seis molas individualmente ajustáveis, uma para cada corda.

Detalhes do trêmolo

Uma diferença evidente estava na paleta, que abrigava tarraxas no estilo de violão clássico, com pinos grossos, distribuídas no formato “3+3” ao contrário das da Stratocaster que eram de pino fino e distribuidas no formato “6-em-linha”. As maiores similaridades maior estão na forma de construção do braço em uma só peça, sem uma escala em separado e na cor escolhida para seu acabamento.

Apesar de serem encontrados instrumentos pintados em cores sólidas como preto e vermelho, a grande maioria teve o corpo pintado em sunburst de dois tons com os braços em acabamento natural, uma combinação tradicional da Stratocaster. Ao modelo foi dado o nome de “Grazioso” e ele se tornou um grande sucesso, ganhando até uma medalha de ouro na “Expo 1958” em Bruxelas.

A Resonet Futurama 

No final de 1957 a Drevokov assinou um contrato com a Selmer para distribuição de seus produtos na Grã Bretanha. As primeiras peças chegaram ostentando o nome “Grazioso” na paleta, mas isso logo se mostrou inadequado mercadologicamente. Logo depois a Selmer as rebatizou de Futurama e elas começaram a chegar sem nenhum nome inscrito na paleta, vinham apenas com o logo “Resonet” no escudo. Só instrumentos sunburst foram importados. Pelas novidades que apresentava, a Selmer as promovia como “A Mais Avançada Guitarra Elétrica Do Mundo”, o que não fugia muito da verdade na época.

Era uma Futurama dessa primeira versão que George Harrison usava.

Apesar de George reclamar da dificuldade em tocá-la, tudo indica que ela não era um mau instrumento e com certeza era um instrumento muito moderno para os padrões disponíveis na Grã Bretanha na época. Ela era vendida por £57.75 (aprox. £1030 hoje), incluindo uma correia. Um case custava mais £6.30. Isso fazia da Futurama um instrumento muito caro numa época que um Hofner Club 40 custava £33.60 e uma Rosetti Solid 7 £18.90. Mais tarde a Futurama foi comercializada como uma linha mais econômica, mas as primeiras certamente se colocavam na faixa mais alta. Muitos guitarristas influentes da época usavam uma, entre eles Gerry Marsden do Gerry and the Pacemakers e o jovem Jimmy Page, que trocou sua Hofner Senator por uma Grazioso quando suas habilidades guitarrísticas começaram a melhorar. E é fato que quase todas as bandas da Grã Bretanha tinham uma Futurama entre seus intrumentos no início dos anos 60. Larry Wassgren, um colecionador de Wisconsin, EUA, possui uma exatamente igual à de George e conta que ela tem uma excelente sonoridade e é muito confortável de tocar.

George a usou desde o final de novembro de 1959 até a primeira quinzena de julho de 1961 quando comprou a Gretsch Duo Jet. Isso cobre várias apresentações em Liverpool e as duas viagens à Hamburgo. Foi ela que George usou nas gravações em junho de 1961 quando os Beatles acompanharam Tony Sheridan em oito canções, que foram lançadas no LP Tony Sheridan & The Beat Brothers (Os Beatles foram rebatizados por Bert Kaempfert, o produtor do disco, como “The Beat Brothers” porque a palavra “beatles” pronunciada com sotaque germânico soava muito parecida com “peedles” que é uma palavra alemã para “pênis”). Nesse dia os Beatles também gravaram “Ain’t She Sweet” e “Cry For A Shadow” na qual se pode ouvir George fazendo o solo com a sua Futurama.

A Drevokov inovadora 

Outros instrumentos Resonet interessantes eram o lap-steel Arioso e o baixo Arco, um baixo elétrico para ser tocado como um contrabaixo acústico de orquestra. A Arioso, introduzida em 1955, tinha um captador com duas bobinas reversas – os tchecos haviam inventado o captador humbucker independentemente de Seth Lover e nem se deram conta disso! Estranhamente ele não foi desenvolvido posteriormente e nunca mais apareceu num instrumento da marca.

O Baixo Arco era um instrumento de concepção inédita na época. Tinha um formato angular, um repouso regulável para o joelho e um controle de volume na traseira do instrumento, para fácil acesso. O baixo Arco também foi importado pela Selmer como o Futurama Bass.

Outro instrumento à frente de seu tempo foi o baixo Pedro VI que aparentemente foi o primeiro baixo de seis cordas a aparecer comercialmente.

A Drevokov até os dias de hoje 

Em 1959 um novo diretor tomou posse na Drevokov, um homem que não se importava muito com música. Josef Ruzicka e sua equipe foram movidos para uma nova fábrica em Hradec Kralove e posteriormente as fábricas em Krnov e Horovice. Agora a produção estavam sob a tutela da estatal CSHN (Instrumentos Musicais Tchecoslovacos) e várias marcas foram utilizadas, como Neoton, Delicia e Jolana. Muitas mudanças foram feitas na Futurama mas sempre no sentido do barateamento de produto, acabando por comprometer sua qualidade. Conta-se uma interessante história: a mudança de braço parafusado por braço colado aconteceu não por uma busca de timbre mas sim porque eles acabaram ficando sem parafusos.

No momento que o embargo aos produtos americanos foi levantado e as Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker ficaram disponíveis na Grã Bretanha, as Futurama foram imediatamente esquecidas. Apesar disso, a fábrica continua produzindo até hoje e há inclusive um modelo Grazioso atualizado. Nos anos 80 eles até fabricaram os modelos Striker e Vanguard para a Kramer.

Hoje, com o crescente entusiasmo com coisas relacionadas aos Beatles, as Futurama têm sido alvo de um maior interesse no mercado “vintage”.

Não sei se vai chegar à procura que têm os outros instrumentos mais nobres que os Beatles usaram mas, conhecendo toda a história e as inovações escondidas nela, ficamos com vontade de ter uma Futurama bem ao ao alcance das mãos.

É um capítulo honroso da história da guitarra!

por Carlos Assale

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1 comentário Adicione o seu

  1. Anônimo disse:

    Que matéria perfeita, feita por um cara que realmente entende. Parabéns, Sr. Carlos, muito bem feito esse texto!

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