Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Rickenbacker 325-58

O escritor Ray Colemann, numa entrevista em 1965, pediu a John Lennon que dissesse qual a sua posse de maior valor. “Minha primeira Rickenbacker. Eu a comprei na Alemanha em prestações. Não importa quanto tenha custado, era muito dinheiro pra mim”, respondeu John. Já milionário na época da entrevista, tinha adquirido muitos bens materiais. Mas foi sua velha Rickenbaker que ele considerou o seu bem mais valioso.

Devido à sua raridade e à sua associação com John Lennon, esta guitarra tornou-se o Santo Graal para colecionadores e estudiosos. Também é o instrumento mais modificado por ele e do que mais se tem informações desde sua fabricação.

Adolph Rickenbacher (era assim que seu sobrenome era escrito originalmente) nasceu na Suíça em 1892. Aparentemente seus pais faleceram quando ele ainda era menino e parentes o levaram para a América. Morou em Columbus (Ohio) e Chicago antes de fixar-se em Los Angeles em 1918. Ele e dois sócios fundaram a “Rickenbacher Manufacturing Company” em 1925, uma empresa que fabricava peças metálicas e plásticas. Engenheiro brilhante, Adolph também era um homem agradável e generoso. Seus amigos o chamavam de Rick. Com sua competência fez a Rickenbacher Mfg. crescer rapidamente e logo possuía uma das maiores prensas de repuxo da Costa Oeste dos EUA.

George Beauchamp, texano, tocava guitarra havaiana nos teatros de revista e, como muitos outros guitarristas, andava frustrado. Queria um instrumento que pudesse ser ouvido quando tocado junto com um naipe de metais ou que pelo menos tivesse um volume compatível com o banjo, o instrumento de cordas que tocava com maior volume naquele tempo. Sua busca o levou ao luthier John Dopyera, que mantinha uma oficina com seu irmão Rudy. Desse esforço nasceu um tipo de violão que chamado de “Ressonator Guitar”, aqui conhecido como Violão Dinâmico, produzido por muito tempo pela Del Vecchio. A National String Instrument Corporation foi fundada em 1928 com vários sócios, entre eles George Beauchamp e John Dopyera, para fabricar e distribuir os violões dinâmicos com corpo de madeira ou aço. Depois de algum tempo houve um desentendimento entre os sócios quando os irmãos Dopyera saíram da sociedade e fundaram a Dobro (Dopyera Brothers) que fabricava o mesmo tipo de instrumento.

Esses violões exigem um alto grau de precisão na manufatura das peças metálicas para que funcionem direito e passo lógico era contratar uma empresa metalúrgica que pudesse garantir essa qualidade. A National e a Dobro tornaram-se clientes de Adolph Rickenbacher.

Nos anos 20 a idéia de instrumentos de corda elétricos já estava no ar por algum tempo. Com os problemas societários se acumulando na National, George Beauchamp começou a pesquisar avidamente essa possibilidade trabalhando à noite na mesa de jantar de sua casa. Acabou desenvolvendo o primeiro captador para guitarras, o “Horse Shoe” (ferradura). Ele foi montado num protótipo de guitarra havaiana feito à mão na garagem de sua casa pelo artesão Harry Watson e esta foi a primeira guitarra elétrica construída no mundo. É conhecida por Frying Pan (frigideira) por motivos óbvios. A patente desse produto foi pedida em 1932 e concedida em 1937.

Adolph Rickenbacher tinha tomado gosto pelo pela indústria de instrumentos musicais e gostava bastante de Beauchamp. Ao ver a nova invenção e acreditando em seu sucesso comercial, propôs a Beauchamp a fundação de uma nova companhia. Os dois e mais alguns amigos fundaram a Ro-Pat-In Corporation em 1931 que tinha Adolph Rickenbacher como seu presidente. A empresa fixou endereço num prédio ao lado da Rickenbacher Mfg. e iniciou a produção das “Frying Pan” e violões elétricos que traziam a marca Electro Strings Instruments. Em 1934 o nome da companhia foi mudado de “Ro-Pat-In” para “Electro Strings Instruments Corporation” e os instrumentos fabricados começaram a se chamar Rickenbacker Electros já com a grafia americanizada. O nome Rickenbacker era famoso na época por causa de um primo de Adolph – Eddie Rickenbacker, um ás da aviação da Primeira Guerra – e eles desejavam capitalizar essa conexão. Mas chamar os instrumentos com o sobrenome de Adolph era um movimento natural já que ele era o maior acionista da empresa e suas contribuições técnicas aos produtos eram inestimáveis.

George Beauchamp, com a saúde abalada, renunciou à sua posição na corporação em 1940 e vendeu suas ações para o guarda-livros de Adolph. Pouco depois morreu de um ataque do coração enquanto, contra a orientação de seu médico, pescava em mar profundo. A procissão em seu funeral tinha mais de 3 km de comprimento… não lhe faltavam amigos.

A Electro Strings Instrument Corporation, sob o comando de Adolph, continuou produzindo uma grande gama de instrumentos de corda e acessórios. Aproximando-se da idade da aposentadoria, Adolph começou a pensar em vendê-la. Encontrou um entusiasmado comprador em 1953.

Francis C. Hall nasceu em Iowa em 1909 e mudou-se para Santa Ana, Califórnia, em 1919. Em 1927 fabricava baterias (pilhas) em casa e as vendia através da loja de seu pai. O negócio evoluiu para uma das mais prósperas companhias de distribuição de peças para eletrônica do sul da Califórnia. No final dos anos 30 ele rebatizou a empresa de Radio and Television Equipment Company, também conhecida como Radio-Tel. Em 1946 a Radio-Tel começou a distribuir guitarras havaianas e amplificadores feitos por Leo Fender em Fullerton – Califórnia, rapidamente se transformando seu distribuidor exclusivo e construindo uma rede nacional de distribuição para os produtos Fender.

Hall apoiou Leo Fender financeiramente numa época em que a fabricação de guitarras elétricas era algo considerado de alto risco pelos homens de negócio. Claramente ele foi uma das primeiras pessoas a reconhecer as brilhantes possibilidades comerciais existentes nas guitarras elétricas.

Em dezembro de 1953 Adolph Rickenbacker vendeu a Electro Strings Instruments Co. para Mr. Hall. Pouco depois Leo Fender e Don Randall fundaram a Fender Sales, Inc. que iria gerenciar toda a distribuição dos produtos Fender. Hall vendeu suas ações da companhia e começou a se dedicar à modernização da Electro Strings e da sua linha de guitarras Rickenbacker.

Mr. Hall dirigia os caminhos da empresa com competência, decidindo quando introduzir novos modelos e sempre estimulando a criatividade de seus empregados. Um deles, Roger Rossmeisl em 1957, desenvolveu um modelo semi acústico, estilisticamente inovador e batizou a linha de “Capri”. Logo o nome foi abandonado e as guitarras ficaram mais conhecidas como Modelo 300. Francis Hall acreditava que versões com tamanho reduzido do original seriam bem vindas e definiu uma linha neste sentido chamando os modelos de 310, 315, 320 e 325. Na Rickenbacker os códigos com final “0” significam guitarras com ponte fixa comum e os de final “5”, guitarras com tremolo.

Em 1960 John Lennon ouviu na Alemanha, no rádio, a banda de jazz de George Shearing tocar e ficou entusiasmado com o som da guitarra. O guitarrista era Jean “Toots” Thielemans, há longo tempo um endorser das guitarras Rickenbacker. Na capa de um disco de “Toots” notou que ele usava uma Rickenbacker.

Um dia, acompanhado de George Harrison, John entrou numa loja em Hamburgo e comprou uma Rickenbacker em prestações, mas pensando no esquema “algum dinheiro agora e o resto quando te pegarem”. Não há registros de que john tenha pago o instrumento algum dia. A Rickenbacker que John comprou era um Modelo 325 com acabamento natural, quatro knobs, três captadores, escudo dourado e um trêmolo VibRola – número de série V81.

A fabricação desses modelos teve início no começo de 1958 com os números de série começando em V80. Isso indica que a guitarra de John foi a segunda a ser fabricada. A guitarra com o número V80 tinha acabamento sunburst (chamado de Autummglo) o que torna a guitarra de Lennon a primeira em acabamento natural (chamado de Mapleglo) a ser produzida. Apenas 28 guitarras foram fabricadas no ano de 1958: 20 Autummglo e 8 Mapleglo. A guitarra de John tem o tampo sólido enquanto a maioria das 325 produzidas têm um “f-hole”, um buraco em forma de “f” parecido com os usados nos instrumentos de arco. Isso a torna um dos instrumentos mais raros já fabricados pela Rickenbacker.

Mr. Hall e a guitarra de Lennon.

A guitarra comprada em Hamburgo também foi fotografada na Feira de Instrumentos Musicais da NAMM (National Association of Music Merchants) de 1958 em New York. Numa foto do stand vê-se a guitarra de John no canto inferior direito e em outra, onde “Toots” Thielemans está tocando, vê-se a guitarra na direção de seu cotovelo. Ela pode ser reconhecida por um desenho específico da madeira em seu “chifre” maior, pela curvatura incomum da alavanca do trêmolo e pelos cinco parafusos de fixação do escudo – provavelmente um ajuste feito na própria feira a pedido do demonstrador. A guitarra de Lennon é a única com essa curva dupla e com esse número de parafusos de fixação, o que a torna especialmente rara. Todas as outras têm a alavanca praticamente reta e quatro parafusos.

As guitarras foram um fracasso, ninguém se interessou por elas. Decidiu-se então fazer algumas modificações. De volta à Los Angeles o circuito elétrico foi modificado sendo acrescentados dois potenciômetros, disponibilizando agora dois controles de volume e dois de tom, aumentando a versatilidade. Também foram equipadas com novos knobs em estilo Art-Deco, hoje conhecidos como “botões de fogão”. Todas as peças originais foram reaproveitadas, o que explica a guitarra de John continuar com os cinco parafusos e com a alavanca com a dobra extra.

Registros da fábrica detalham o embarque, em 15 de outubro de 1958, de três Modelos 325 Mapleglo, incluindo a de numero de série V81, para o distribuidor na Alemanha – a Framus Company. Praticamente dois anos depois John Lennon entra na loja Musikhaus Rotthoff, em Hamburgo, e pede uma Rickenbacker. Coincidentemente eles têm uma encalhada no estoque há muito tempo e as vontades se complementam. John tem agora uma legítima guitarra americana, algo com que sempre sonhara e a loja livrou-se de um produto difícil de vender. Esta coincidência salvou o Modelo 325 de uma extinção quase certa e ainda tornou-o um dos produtos mais populares e procurados da Rickenbacker.

John não era muito apegado à originalidade das peças de sua guitarra e promoveu profundas transformações nela. A primeira foi uma troca de trêmolo em 1961. O Kaufmann VibRola não era um equipamento muito estável e não conservava a guitarra afinada por muito tempo. Talvez inspirado na Duo Jet de George, encomendou um trêmolo Bigsby B-5. Quando o equipamento chegou, John foi com sua guitarra buscá-lo e o trêmolo foi instalado na própria loja. Um novo cavalete de alumínio, chamado de “Bow Tie” (gravata borboleta), veio com o conjunto e também foi instalado no instrumento. John ficou satisfeito com seu novo e muito mais estável trêmolo.

O Vibrola original e o novo Bigsby com a Bow Tie

Mas os knobs estavam sempre caindo e John começou a usar um modelo cromado, comprado em loja de equipamentos eletrônicos, talvez pela maior facilidade de obtenção.

Em 1962 John decidiu pintar a guitarra. Não se sabe exatamante o que o levou a isso, mas provavelmente a idéia de Brian Epstein em ter o visual da banda com tudo combinando tenha influenciado na decisão de pintá-la de preto, combinando com a Duo Jet de George. O serviço foi feito por Charles Bantam, um pintor de automóveis com oficina em Birkenhead, um subúrbio de Liverpool. Ao mesmo tempo John resolveu trocar os knobs por um modelo da Hofner, iguais aos do baixo de Paul. A primeira foto que denota esta mudança foi tirada em 12 de outubro de 1962. Mas como o pintor pouco entendia de guitarras, devolveu o instrumento com as ligações elétricas erradas e a guitarra não funcionava direito. Ela vivia com o escudo apenas preso por dois parafusos o que mostra que várias tentativas de consertá-la estavam sendo feitas entre as apresentações. E os knobs continuavam caindo.

Na última quinzena de 1963, com o grupo em férias, a guitarra foi levada para Jim Burns, um fabricante de guitarras de Essex, e a parte elétrica foi consertada. Nesse momento ganhou o último jogo de knobs que teria – os knobs que Burns usava em suas guitarras.

 Na ordem: a) Knobs originais, estilo botão de fogão; b) Knobs da loja de eletrônicos; c) Knobs Hofner e d) Knobs Burns

A guitarra foi usada por John em todas as apresentações ao vivo e em todos os trabalhos de estúdio entre sua compra em 1960 e a primeira apresentação no Ed Sullivan Show em New York em 1964, onde ela fez sua última aparição pública. Na segunda apresentação, em Miami, John já usou sua nova Rickenbacker 325, Jetglo (preta), fabricada em 1964 e que lhe foi entregue um dia antes do programa. As últimas fotos em que a velha Rick aparece são de 30 de setembro de 1964, dentro do estúdio, data em que aparentemente foi definitivamente aposentada.

A guitarra não foi tocada seriamente até 1970 quando John resolveu restaurá-la. Levou-a ao luthier Ron de Marino de New York, que a retornou ao seu acabamento transparente original, trocou o escudo dourado que estava rachado por um branco e colocou novas tarraxas Grover Sta-Tite seladas. A guitarra ainda pertence a Yoko Ono e está exposta no Museu John Lennon de Tóquio.

A Rick em sua condição atual

Especificações Originais

Número de série:
V81

Ano de fabricação:
1958

Cor:
Mapleglo (natural)

Escudo:
Simples, dourado

Corpo:
Alder, semi sólido

Braço:
Alder, laminado

Escala:
Alder

Marcadores de posição:
Discos (bolinhas) de plástico cor creme

Tarraxas:
Grover, não seladas

Captadores:
3 Single coil estilo “toaster” (torradeira)

Controles:
Chave seletora de três posições, 2 controles de volume e 2 de tonalidade

Ponte:
De roletes

Trêmolo:
Kaufmann VibRola

Knobs:
Art Deco – estilo botões de fogão

Por Carlos Assale

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