Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Fender Stratocaster 1961

Por volta de 1939 Leo fundou a Fender RadioService, em Fullerton, uma empresa de varejo e manutenção de produtos eletrônicos, discos, instrumentos musicais, sistemas de PA e partituras.

A guitarra Havaiana (Lap-Steel), assim como o Ukulele, tinha se tornado moda entre os americanos desde os anos 20 e ainda gozava de extrema popularidade nessa época. Por isso foram as primeiras guitarras a serem “eletrificadas” nos anos 30. Várias empresas inovadoras, como a Rickenbacker, começaram a experimentar com captadores eletromagnéticos montados em guitarras e conectados a pequenos amplificadores.

A loja de Leo Fender era frequentada por muita gente da área da música e da eletrônica e algumas delas se mostraram muito importantes para seu futuro sucesso. A primeira dessas foi o violinista e “lap-steel player” chamado Clayton Orr Kauffman, conhecido por todos como “Doc”. A segunda foi Dan Randall, que operava um pequeno atacado de peças de rádio e era fornecedor de Leo.

Um dia, no início dos anos 40 Doc levou um amplificador para Leo consertar e ele começaram a conversar. Doc tinha trabalhado no design de guitarras elétricas para a Rickenbacker e nessa época Leo estava bastante interessado no potencial delas e experimentado com a construção de captadores.

Durante a Segunda Guerra Mundial Doc foi trabalhar numa fábrica de aviões mas ele e Leo encontraram tempo para se encontar. Desses encontros desses incorrigíveis pensadores nasceu um projeto de um toca discos automático cuja venda lhes rendeu US$5.000, uma soma significativa na época.

Boa parte desse dinheiro foi canalizado para a fundação da K&F que começou a fabricar “lap-steels” e pequenos amplificadores em 1945. A empresa teve vida curta.

Doc, mais tarde, contou:

“Nós íamos até a loja onde, nos fundos, uma sala de metal abrigava o departamento de guitarras. Trabalhávamos até meia noite. Eu costumava montar todos os nossos instrumentos, encordoá-los e tocar algumas frases. Leo dizia que podia saber como a produção estava indo só de contar as músicas que eu estava tocando.”

Leo era o que chamamos hoje de “workaholic” e esse ritmo não agradava a Doc, que gostava de passar horas em casa com sua família. Ele também tinha um rancho e, com a lembrança da depressão de 1930 ainda viva, temia perdê-lo se ficasse muito comprometido com dívidas. Em fevereiro de 1946 retirou-se da empresa e deixou tudo com Leo.

Don Randall passou três anos servindo na Segunda Guerra Mundial e quando voltou tornou-se o gerente geral da “Radio & Television Equipment Co. (R&TEC)” de Francis Hall – que mais tarde compraria a Rickenbacker – e passou, em 1945, a ser o distribuidor exclusivo dos produtos Fender.

Fender Electric Intruments Co.

Em 1946 Leo fundou a Fender Electric Instruments Co. continuando a fabricar lap-steels e amplificadores mas gradualmente oferecendo novos produtos. Era um homem introvertido, trabalhador compulsivo, inclinado a dedicar horas seguidas a uma tarefa e sua maior felicidade era ficar na prancheta desenvolvendo novos projetos. Ele tinha a convicção de que se já houvesse um produto no mercado ele poderia fazê-lo melhor e mais barato e ainda obter lucro no processo.

Agora que a Segunda Guerra Mundial tinha terminado a sensação de um recomeço era generalizada e um dos processos que os industriais americanos estavam explorando para obter seus objetivos era a produção em massa. A aplicação desse princípio à fabricação de guitarras foi seu grande lance.

Após observar outros designs como os da Rickenbacker, Les Paul e Paul Bigsby, projetou o instrumento que hoje conhecemos por Telecaster, que antes se chamou “Esquire” e “Broadcaster”. Esse instrumento simples e efetivo, desenvolvido para produção em massa, foi a primeira guitarra elétrica de corpo sólido com sucesso comercial da história. E é produzida até hoje.

A Fender Stratocaster

Após um período de grandes dificuldades financeiras, administrativas e organizacionais, quando a empresa quase quebrou, a produção e as vendas se ajustaram e o negócio começou a andar de maneira satisfatória. Leo tinha agora homens competentes tocando a fábrica e uma reputação pequena porém crescente.

Mas a Telecaster era um produto espartano, sem enfeites, num tempo em que outras marcas enfeitavam suas guitarras com filetes e sofisticada marchetaria. Leo precisava de um produto novo que fosse mais chamativo.

Ele estava ouvindo atentamente aos comentários dos usuários e ele e Freddie Tavares começaram a formular o que viria a se tornar a Stratocaster. Uma quantidade expressiva de usuários reclamava do corpo com cantos vivos da Telecaster e eles começaram a experimentar com seus contornos. A contribuição mais expressiva veio do guitarrista Bill Carson, que foi quem deu as idéias dos seis rastilhos com ajuste horizontal e vertical, o corpo com contornos que deveria ajustar-se ao executante como uma camisa e o trêmolo que deveria, além de manter a afinação das cordas quando acionado em qualquer sentido, subir ou descer pelo menos meio tom um acorde sem desafinar.

A Stratocaster, que passou a ser conhecida também como “Strat”, foi lançada com um corpo radicalmente esguio, com cortornos que o tornavam confortável para o guitarrista e – sendo a primeira guitarra sólida com esta característica – com três captadores. O trêmolo desenvolvido continha numa só peça os rastilhos ajustáveis, o prende cordas e o sistema de alavanca – um mecanismo inédito e avançado para a época. Como um todo a guitarra era mais filha do design automobilístico do que das formas tradicionais dos instrumentos musicais, especialmente nas formas flúidas, sensuais de seu bem proporcionado corpo. O novo escudo complementava as curvas com extremo bom gosto e a impressão que se tinha era que todos os seus componentes combinavam uns com os outros perfeitamente. Até mesmo o soquete do jack de sáida era novidade, ficando rebaixado numa placa estilizada.

Não é à tôa que a Strat se tornou a mais popular, a mais copiada, a mais desejada e muito provavelmente a mais tocada guitarra da história.

A produção começou em 1954 e eram pintadas apenas num sunburst de duas cores: de amarelo para preto.

Custom Colors – Sonic Blue

Às vezes algumas guitarras, como pedidos especiais, eram pintadas em cores sólidas. Não era, a princípio, algo comum. A idéia porém foi pegando e em 1956 essas pinturas constavam no catálogo como Players Choice e custavam 5% extra. Em 1957 eram constavam como “Custom Colors” e ainda custavam os 5% extra. Em 1960 foram impressas cartas de cores mostrando as 14 custom colors disponíveis. As cores tinham nomes evocativos como “Lake Placid Blue (azul lago tranquilo)”, “Shoreline Gold (ouro costeira)”, “Foam Green (verde espuma)” e “Fiesta Red (vermelho festa)”, todas usando as tintas fabricadas pela DuPont para a indústria automobilística.

Uma delas chamava “Sonic Blue (azul sônico)”. Originalmente desenvolvida para os Cadillacs de 1956, era feita com a laca DuPont 2295L. Sua tonalidade, não muito desejada na época, era algo como o que chamamos de azul-bebê. Hoje é uma cor clássica, muito valorizada no mercado “vintage”.

Em 1961 as Strats vinham com escala escura, escudo laminado branco/preto/branco (na verdade levemente esverdeado) com onze parafusos de fixação e logotipo com dois números de patente: 2.573.254 e 2.741.146. O primeiro referia-se às cordas passando através do corpo como nas Telecaster e o segundo ao trêmolo.

Nowhere Man

Em 1964 os Beales atingiam um sucesso extraordinário e um problema se apresentou à Fender: eles não usavam nenhum equipamento da marca, nem guitarras nem amplificadores.

Dan Randall, apesar de contra a regra de ouro da companhia de não pagar artistas para endossar seus produtos, enviou seu funcionário Jim Williams para tentar um acerto com Bian Epstein. A idéia era fornecer à banda todo o equipamento Fender que eles quisessem. A reunião foi agendada para os dias 28 ou 29 de agosto, em New York, durante a passagem da banda pela cidade para os shows no Forest Hills Tennis Club Stadium. Entretanto Williams não conseguiu se encontrar com Epstein e provavelmente apenas conversou com Neil Aspinall ou Mal Evans. A resposta foi que a banda estava satisfeita com o seu equipamento e não tinha intenção de trocar.

Poucos meses depois, em fevereiro de 1965, durante as sessões de gravação de Help!, John e George decidiram comprar suas Strats. George conta:

“Era engraçado, porque todas aquelas bandas americanas vinham sempre à Inglaterra dizendo: ‘Como você consegue aquele som de guitarra?’ E quanto mais eu o ouvia, mais eu me convencia que não gostava do som de guitarra que eu tinha. Era uma porcaria… Então decidi ter uma Strat e John decidiu ter uma também.”

Mandaram então Mal Evans, o roadie, sair e buscar “um par de Strats”. Mal as encontrou na loja Grimwoods em Kent e voltou com duas Strats 1961 Sonic Blue (Brian Epstein tinha concordado em pagar por elas só se fossem da mesma cor). É irônico que, meses antes, a Fender teria pago para que eles usassem este instrumento.

Fotos das sessões de HELP! mostram John tocando sua Strat mas não há registros que qualquer delas tenha sido usada em alguma canção deste álbum. Entretanto quando se ouve as notas Lá simples tocadas em “Ticket To Ride”, o timbre de uma Stratocaster parece evidente. Com certeza elas foram intensamente usadas nas sessões de Rubber Soul, notadamente no solo de Nowhere Man e regularmente nos álbums posteriores.

Não se conhece o paradeiro da Strat de John.

Rocky

Na primavera de 1967 o movimento psicodélico estava força total. Viagens coloridas, promovidas pela ingestão de comprimidos de LSD, eram comuns entre os jovens. O grupo então resolveu pintar seus instrumentos. George escolheu uma pintura psicodélica para sua Strat e a apelidou de “Rocky”. George:

“Roupas coloridas, casas coloridas, carros coloridos… era lógico ter uma guitarra colorida. Nesses dias tintas day-glo laranja e limão eram muito raras mas eu descobri onde comprá-las. Comprei várias cores e pintei a Strat com um pincel, nada muito artístico já que a tinta era muito espessa. Eu também aprendi sobre a tinta nitrocelulose, que vinha num tubo com uma ponta esfé (como uma grande caneta esferográfica), enchi o escudo com elas e fiz desenhos na paleta com o esmalte de unha verde cintilante de Pattie (ex-mulher).”

A guitarra assim pintada apareceu no programa Our World, a primeira tranmissão mundial de TV usando um satélite onde os Beatles, representando a Grã Bretanha, tocaram All You Need Is Love. Mais tarde, no mesmo ano, apareceu na cena de I Am The Walrus do filme Magical Mistery Tour.

Na carreira solo George ajustou a Rocky para o uso de slide e a usou no solo de “Free As A Bird”. Sua última aparição pública registrada foi no “Concert For George”, de 2003, quando foi usada por Andy Fairweather Low. Pertence ao espólio de George Harrison.

Especificações Técnicas

Por Carlos Assale
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