Tudo que você precisa saber sobre o Álbum Branco dos Beatles

Prepare-se: nas próximas horas você mergulhará em um universo fascinante: o maior documento sobre o Álbum Branco (ou White Album) dos Beatles na língua portuguesa!

Quando o ano de 1968 começou, o mundo vivia uma efervescência alucinante de acontecimentos na política, na economia, nos costumes, nas liberdades, e nas artes. Neste último contexto onde estavam inseridos os Beatles eles sem dúvida eram os expoentes máximos numa espécie de ‘olimpo’ onde não se podia desprezar de modo algum os que estavam gravitando e porque não dizer, concorrendo com eles pela supremacia. Bob Dylan, The Rolling Stones, The Who, Jimmy Hendrix, The Doors, Janis Joplin e outros tantos faziam do rock and roll o segmento musical por excelência – consolidado como a nova ordem em termos de música da juventude, ou para os jovens.

Dando uma rápida olhada para trás era possível compreender com facilidade porque os Beatles estavam no topo. Vinham do furacão representado pelo álbum Sgt.Peppers Lonely Hearts Club Band, o disco conceitual que representou uma virtuosa e corajosa virada no som popular e exitoso que fizeram até 1965 em termos de vendagem e aceitação. Com os dois LPs anteriores, Revolver e Rubber Soul eles já introduziam a mudança de estilo que se consolidaria um pouco mais tarde. Os Beatles arrastavam multidões, inventavam o show biz, haviam tirado o rock and roll dos porões fumarentos dos anos cinqüenta e da primeira metade dos anos sessenta e o levavam para grandes espaços como o Shea Stadium de Nova York. E estes mesmos Beatles decretavam o fim da fase do ‘yeah yeah yeah’ avisando que não dava mais para continuar naqueles palcos sendo alvo de um alarido ensurdecedor e prejudicial ao som que queriam fazer. Eles, em agosto de 1966 estavam convencidos que queriam ser ouvidos. Era para isso que existiam. Foi com esse propósito que se reuniram.

Sgt. Peppers era a modernidade, a tecnologia, a exacerbação da entrega às possibilidades que pareciam infinitas dentro dos estúdios de gravação – apoiados pelo maestro George Martin e por alguns dos mais competentes técnicos da história. O que viria a partir daí? O mundo naquela época passou a esperar e a exigir cada vez mais dos Beatles. A demora na concepção de Sgt. Peppers levou a dois sentimentos. Antes de o disco sair não foram poucos os que preconizaram que a banda estava acabada. Após o lançamento e o impacto positivo que varreu o planeta a visão mudou. Será que eles vão fazer um novo disco tão bom quando Peppers cobravam alguns articulistas das principais publicações ligadas à cultura e ao entretenimento, em janeiro de 1968. E o que exatamente viria? Nem os Fab Four sabiam, quando o novo ano começou.

Os Beatles sempre estiveram à frente do seu tempo, como se sabe. Mas a velocidade dos acontecimentos nos anos sessenta era incomparavelmente mais lenta que nos dias atuais. A informação demorava muito mais a chegar num mundo sem internet e com a comunicação por satélite engatinhando. Na cabeça da maioria do planeta, John, Paul, George e Ringo ainda eram aqueles quatro carismáticos, sortudos e sorridentes ingleses que magnetizavam multidões onde quer que fossem em perfeita sintonia. Internamente os tempos já eram outros e 1968 foi o ano que marcou o início dos desentendimentos que desaguariam na dissolução da banda anunciada na primeira metade de 1970.

Nas primeiras semanas de janeiro de 1968 a diversão nos canais de televisão mundo afora (Brasil inclusive) era assistir aos cartoons dos Beatles onde eles eram mostrados de forma inocente em seu clássico visual da primeira fase. O movimento Jovem Guarda no auge em nosso país ainda imitava os primeiros tempos dos Fabs, embora a Tropicalia e os Festivais da Canção apontassem novos caminhos mais de acordo com o período que se seguiu a Sgt. Peppers. Havia mais. Os próprios Beatles se associavam a um tipo de produção que repassava ao mundo a idéia da unidade eterna entre eles cristalizada pelo desenho animado que virou longa duração, o filme Yellow Submarine, concebido em parceria com a empresa King Features e que inundou os cinemas mundiais de ‘psicodelismo’ adicionando imagem e movimento às canções que eles entregaram ao mundo a partir da segunda metade de 1965.

O filme que estrearia em julho de 1968 foi uma das primeiras ocasiões em que John Lennon apareceu em público acompanhado de Yoko Ono, por ocasião da estréia do filme em Picadilly Circus numa Londres dominada pelo colorido dos hippies e do trinômio sexo, drogas e rock and roll. O visual, os Beatles e os tempos eram outros, mas o mundo parecia não perceber, embevecido pelo acontecimento que representava cada passo daqueles quatro caras, como se tudo que fizessem virasse ouro e se transformasse em assunto de capa e das principais manchetes do dia. E era somente música. It’s only rock’n’roll.

Uma Japonesa no Meio do Caminho

Em 1968 a relação intensa de John Lennon & Yoko Ono era vista como um estorvo pelos demais Beatles porque o parceiro de sempre agora parecia fanatizado pela japonesa e com ela passava a maior parte do tempo. O tempo todo! Artista multimídia e mulher ‘antenada’ com os movimentos pela libertação feminina, Yoko também alertava John para o fato de que os Beatles não deixavam de representar uma restrição para a individualidade dele como personalidade consolidada no show business. Esses fatos, agora, tantos anos depois são representativos dos primeiros focos de tensão numa convivência que parecia perfeita aos olhos do mundo, e que funcionara até então de fato e de direito, apesar da supremacia de Lennon-McCartney – que não deixava de contar até então com a complacência e a colaboração de George & Ringo.

Não são poucas as histórias de intromissão de Yoko Ono narradas por quem teve o privilégio de observar o desconforto dos outros três Beatles com a presença permanente dela nos estúdios de gravação – presença marcante porque opinativa. “John a levou para conhecer os estúdios Abbey Road e ela nunca mais foi embora”, ironizou George Harrison numa entrevista nos anos setenta. Ela interrompia a execução de canções para dar toques e dicas como se fosse do grupo. O fato gerava constrangimentos sem precedentes. Engenheiros e técnicos de gravação contam que Yoko também estimulava a conspiração e a competição entre os Fab Four, sobretudo entre John e Paul ao insistir na prática de falar coisas ao ouvido de Lennon, sentada no amplificador da guitarra dele, ou seja, excessivamente inserida num ambiente onde os quatro não admitiam ninguém mais. Nem mesmo suas outras mulheres. Cynthia Powell era uma figura passiva e conformada com seu papel de esposa de um beatle, assim como Patty e Maureen, ou a namorada de Paul, Jane. Yoko não. Ela era a alma gêmea, a sombra, uma presença que passou a ser marcante e indissociável à figura de John Lennon em 1968, e assim seria até o último dia da vida dele, em 1980.

Unidade ou Individualismo?

A resposta para a pergunta “o que viria depois de Sgt. Pepper?” foi justamente o White Album. E o Álbum Branco não teria somente a responsabilidade de manter o padrão de qualidade que marcava e diferenciava os Beatles da concorrência. O disco concebido com a missão de consolidar a unidade acabou entrando para a história como a produção que deu início à desintegração com suas sessões tensas, por vezes marcadas por desentendimentos inéditos, rompimentos e, porque não dizer, fraturas numa relação que naquele momento contava com onze anos de história em comum. Mas no disco onde por vezes imperou o individualismo, no álbum em que fica claro pela primeira vez na história de quem era esta ou aquela canção, temos um punhado de clássicos, de grandes momentos, e de uma produção que, quem sabe, se tenha até beneficiado da conturbação dentro dos estúdios.

Mas que ninguém se iluda. À medida que as gravações se sucediam e mais e mais canções eram finalizadas, o que ficava bem claro para George Martin e equipe é que estavam produzindo o primeiro disco com gravações solo daqueles quatro caras que sempre foram amigos, parceiros e colaboradores. A nova produção ficou marcada pelo sumiço do grupo das sessões. Tornou-se comum que trabalhassem juntos nos basic tracks das faixas e depois simplesmente desaparecessem. O Álbum Branco foi marcado pela finalização das músicas em sessões de overdubs por vezes solitárias em que o beatle dono da canção trabalhava sozinho com os técnicos e outros músicos. Ou dois ou três deles se reuniam para ‘fechar’ mais um take. Aquele álbum duplo se tornou o disco que mostrou ao mundo que George Harrison batalhava por mais espaço como compositor, quebrando as regras que tinham vigorado até ali, na qual Paul & John dominavam a cena. Até Ringo desengavetava uma antiga canção solo que levou anos para finalizar e finalmente gravar.

Preocupado com o que acontecia o maestro George Martin chegou a alertá-los no final das gravações que havia material em excesso e que o lançamento de um disco duplo era um risco. Tanto poderia naufragar em vendagem porque custaria mais ao bolso do consumidor como poderia não ‘segurar a onda’ do padrão de qualidade sempre exigido pelo grupo. Propôs que a nova produção fechasse com as catorze melhores canções daquela safra, das trinta e tantas produzidas. Eles refutaram. E pela boa razão de que agora os tempos de fato haviam mudado. Ninguém estava disposto a abrir mão de suas canções em favor das composições dos outros, e, portanto um álbum duplo com trinta faixas foi a maneira encontrada para contentar egos que se exacerbavam.

Não é demais rememorar que a própria criação da Apple Records em meio ao turbilhão tem a ver com o novo momento que os Beatles experimentavam como indivíduos. A idéia da gravadora não deixava de ser uma forma de tentar uma alforria da EMI. À época estavam presos a um contrato que vigoraria até 1976, com regras que favoreciam mais a poderosa companhia inglesa que seus principais astros. O novo selo permitiria que o individualismo fosse extravasado, seja por obscuras produções anticomerciais, como os LPs Wonderwall (George) e Two Virgins (John & Yoko), seja pela intenção de buscar novos rumos abrindo espaço para outros artistas como Mary Hopkin, The Iveys (mais tarde Badfinger), Jackie Lomax, Billy Preston, Ravi Shankar, James Taylor, Steve Miller, Ronnie Spector, Elephant’s Memory e tantos outros produzidos e lançados de forma individual por Paul, George e John.

Com esta reflexão reabrimos e remexemos o baú do tempo com o objetivo pedagógico de posicionar os assuntos e, objetivo maior, reverenciar o único grupo musical da história capaz de transformar lançamentos musicais em acontecimentos para a história. São fatos de meio século passado que tentaremos reinserir no seu aprendizado e formação no universo do rock and roll. Nossa pretensão é tentar marcar a data redonda das quatro décadas de história do Álbum Branco repassando os acontecimentos de uma forma capaz de colocá-lo como uma mosca na parede do Estúdio Dois de Abbey Road onde a maior parte das gravações aconteceu. Mas não pense que é uma história que se encerra. O legado do White Album continua, com seus fundamentos de modernidade intocados através dos tempos, quem sabe como uma ironia às desilusões de George Harrison ao apregoar que ‘tudo passa’. Menos os Beatles, suas canções, seus álbuns e emoções.

1968
Cronologia dos Acontecimentos Até White Album

Wonderwall Music by George Harrison
Friday 12 January

George Harrison foi o primeiro beatle a entrar em estúdio no ano de 1968. Ele voou para Bombaim na Índia onde tinha sessões marcadas com músicos locais arregimentados por seu amigo Ravi Shankar que conhecera três anos antes. Cinco dias mais tarde finalizavam os ‘ragas’ que se transformariam na trilha sonora do filme Wonderwall (no Brasil, Muro das Maravilhas). O álbum não somente foi completado, como George trouxe na bagagem para mixar na EMI uma nova composição pensada para ser lançada pelos Beatles, “The Inner Light”, que veio de Bombaim como faixa instrumental. Curiosamente Wonderwall se tornaria o primeiro disco solo atribuído a um ex-beatle, apesar de George Harrison não tocar nenhum instrumento em nenhuma das faixas. Foi também o primeiro LP com o novo selo Apple a chegar ao mercado, no dia primeiro de novembro de 1968.

Twickenham Film Studios
Thursday 25 January

Na tarde deste dia os quatro Beatles comparecem aos famosos estúdios de filmagem para gravar a rápida aparição que seria inserida no final do filme Yellow Submarine. Comenta-se que a participação só foi decidida quando se chegou à conclusão de que havia a necessidade de deixar claro o envolvimento dos Fab Four com a produção do filme, cuja divulgação seria feita massivamente em cima da imagem deles. Só que a produção era um desenho animado onde os Beatles sequer dublavam as próprias vozes. Na ocasião além de gravar o trecho montado ao final de Yellow Submarine os rapazes foram filmados em várias situações nos estúdios, inclusive ao lado dos bonecos de seus próprios personagens. O material virou um curta de apenas sete minutos intitulado ‘A Mod Odissey’ que pode ser apreciado como bônus no DVD da versão remasterizada do filme.

Abbey Road Studios
Friday 2 February

George Martin trabalha sozinho na remixagem de uma faixa rejeitada para o álbum Sgt. Peppers: “Only a Northern Song”. A intenção era montar a gravação para a trilha sonora do desenho animado Yellow Submarine.

Studio Three, EMI Studios, London
Saturday 3 February

Primeiras gravações dos Beatles no novo ano. Eles seguiriam para a Índia em breves dias com o propósito de estudar Meditação Transcendental com o Maharishi Mahesh Yogi e decidiram produzir um single para cobrir o hiato de produção entre o material publicado em 1967 e o que viria a seguir. Nascia “Lady Madonna”.

Studio Three, EMI Studios, London
Sunday 4 February
Across the Universe session

Os Beatles nos estúdios trabalhando em pleno domingo. Foi um dia histórico, sem dúvida. Dedicado a “Across the Universe”, uma nova composição de John Lennon que começou a ser gravada nessa ocasião. Seis takes foram produzidos. Depois da gravação dos vocais, John & Paul passaram a discutir a possibilidade de utilizar harmonias em falsete. Para isso precisariam de um par de vozes femininas, mas George Martin alertou que seria muito difícil encontrar cantoras disponíveis em pleno domingo, ainda mais sem ter combinado a contratação previamente. Conta a história oficial que Paul McCartney decidiu que resolveria o problema sem sair de Abbey Road, e assim ocorreu. Dirigiu-se à entrada do prédio onde várias fãs adolescentes aguardavam pela saída deles e convidou duas delas a se juntarem aos Beatles para uma gravação. Quis o destino que uma brasileira, Lizzie Bravo (então com 16 anos) e uma inglesa Gayleen Pease (então com 17 anos) entrassem para a história como as primeiras e únicas fãs no mundo a participarem de uma gravação oficial dos Beatles. Após harmonizarem a frase ‘nothings gonna change my world’, Gayleen e Lizzie foram convidadas a se retirar, enquanto os Beatles continuaram trabalhando na canção adicionando guitarra e os efeitos sonoros da introdução, ou seja, os sons de vida selvagem. Lá fora, as duas garotas tinham uma incrível história para ser contada.

1968
Cronologia dos Acontecimentos Até White Album
A SESSÃO DE ACROSS THE UNIVERSE

Segundo Lizzie Bravo

Foi num domingo, dia 4 de fevereiro de 1968. Eles estavam gravando no final de semana, o que não era costumeiro. O porteiro dos estúdios deixou que as meninas ficassem entre as duas portas de vidro, protegidas do frio. Foi quando o inusitado aconteceu. Aquela história que todos já ouviram falar. Leram e releram:

“De fato, Paul McCartney foi até a porta em busca de alguém capaz de cantar uma nota aguda. Eu me candidatei e fui levada para o interior dos estúdios, lugar absolutamente proibido para fãs.

Lizzie Bravo e Gayleen Pease, anos depois.

Lembro de caminhar por um corredor e – repentinamente – adentrar ao estúdio e simplesmente deparar-me com os quatro Beatles naquela sala imensa, microfones, cabos e fios por toda parte. Vários instrumentos musicais espalhados, e gente como Mal Evans, Neil Aspinall e o maestro George Martin. Estavam todos lá. Perguntei se podia chamar uma amiga. Autorizaram. E foi a oportunidade para Gayleen Pease, a outra fã que entraria para a história. Nós éramos meninas calmas, quase tímidas. E o fato de estarmos acostumadas a ver os Beatles quase todos os dias ajudou um pouco para que nos sentíssemos tranquilas naquela situação.

Recebemos instruções de John Lennon e Paul McCartney. John disse entre outras coisas, que tínhamos que cantar bem próximos do microfone porque o aparelho era direcional. A gente começava e ele dizia “mais perto”, repetia até acertar a posição correta para cantar ao lado do meu adorado John. Meu coração batia forte.

Enquanto as coisas não aconteciam (ou, enquanto não paravam de acontecer) era possível observar a descontração do ambiente. Os Beatles brincavam, faziam jams o tempo todo a partir de uma frase ou de um acorde qualquer de guitarra. Nós duas tivemos muitas chances de rir naquela noite – foi mesmo muito divertido. E então ocorreu! As vozes foram capturadas pelos gravadores da EMI para a história. E fomos dispensadas. Lá fora, nem sabíamos o que dizer às demais. Para mim e Gayleen sobrava desorientação. Aquilo havia mesmo acontecido?! A certeza viria algum tempo mais tarde, quando finalmente a gravação saiu e nosso breve backing vocal entrou num disco dos Beatles.”

Studio One, EMI Studios
Tuesday 6 February

O single planejado fica pronto neste dia. George finaliza sozinho “The Inner Light”, adicionando vocais à gravação instrumental que trouxera de Bombaim. “Lady Madonna” é completada por John, Paul e George, que adicionam backing vocals, piano e palmas. McCartney ainda inclui um segundo lead vocal. Ringo não participou porque estava nos estúdios da BBC gravando a participação num especial de televisão da cantora Cilla Black. Com ela o ex-beatle interpretaria “Act Naturally” no programa.

Studio Two, EMI Studios, London
Thrusday 8 February

Um desentendimento registrado na história. John Lennon não gostou de ver “Across the Universe” fora do single que teria “Lady Madonna” no lado A e “The Inner Light” no B. Queria que sua canção fosse utilizada, mas havia controvérsias. Para Paul a faixa ainda não estava definitivamente completada. A solução foi encontrada por Spike Milligan, que precisava de uma música para o álbum de caridade No One’s Gonna Change Our World, e queria os Beatles no projeto. George Martin sugeriu “Across the Universe” e todos concordaram, mas o take ainda passaria por outras sessões de overdubs antes de ganhar o mundo.

Thrusday 15 February
Bangor Departure

Os Beatles param tudo com o objetivo de atender convite feito a eles no ano anterior, a oferta de estudar Meditação Transcendental em Bangor, na India durante três meses com o indiano Maharishi Mahesh Yogi. George Harrison & John Lennon voam para a Índia nesta ocasião. Paul McCartney & Ringo Starr embarcam quatro dias mais tarde. Os Fabs seguiram para lá acompanhados das esposas num período em que ao mesmo tempo estavam em férias e com mil e um planos na cabeça. Enquanto descansavam num verdadeiro paraíso perdido em Rishikesh, ‘cidade indiana a 250 km de Nova Delhi e onde o legendário Ganges termina de descer o Himalaia para se tornar o Rio Ganges propriamente dito’ (créditos a César Labarthe, que esteve lá).

O local parece mágico com seu povo simples, e tomado por muitos ashrams, que nada mais são que centros de ensino da filosofia hindu e de meditação. Convencidos que estavam no lugar certo para fugir um pouco da fama, dos problemas e da adulação, os Beatles também concluíram que o local era inspirador, com a paz de suas montanhas, o verde, águas calmas e silêncio. Não é à tôa que aquilo que viria a ser o Álbum Branco nasceu em Bangor, nas cordas dos violões que os rapazes levaram com eles. Outros artistas famosos como Mia Farrow e os Beach Boys estavam lá, assim como o recém surgido cantor Donovan, Prudence (irmã de Mia), gente ligada ao mundo do show business e por aí vai.

Para o Maharishi o ambiente estava perfeito. Ele tinha os Beatles em seu curso de meditação, que pouca gente até então ouvira falar, se observarmos a questão em larga escala mundial. Ele também sabia que a presença de John, Paul, George & Ringo naquele ponto remoto do planeta não passaria despercebida pela mídia, e de fato os grandes órgãos de comunicação da época correram a Rishikesh para filmar, fotografar e se possível entrevistar os Beatles para explicar ao mundo o que exatamente estavam fazendo lá. Até então a imagem que os Beatles tinham do Maharishi era muito boa, sobretudo pelo fato de assistirem uma envolvente palestra por ele realizada ainda em 1967, pouco depois da morte de Brian Epstein, para uma seleta plateia em Londres.

O Ashram onde os Beatles ‘estudaram’ digamos assim, a meditação transcendental, está em ruínas. Infelizmente. Tudo aquilo que a gente vê em fotografias e em imagens (inclusive na série Anthology) se encontra destruído. O local se tornou notório depois da passagem dos Beatles por lá e serviu, durante vários anos, para que o Maharishi ganhasse muito dinheiro. Com o passar do tempo e o descrédito do guru o Ashram foi fechado e posteriormente abandonado. Ainda hoje existe um centro de meditação no local com o nome do Maharishi. Mas o que exatamente os Beatles fizeram lá? John Lennon & George Harrison se divertiram muito, ao tempo em que também se envolveram mais diretamente com os ensinamentos repassados. Paul McCartney, nem tanto. E Ringo Starr teve a pior experiência. O tempero da comida indiana lhe fez tanto mal que ele voltou dez dias depois.

No período em que estiveram lá, Paul, John & George compuseram praticamente todo o Álbum Branco, além de um punhado de esboços de canções que jamais seriam aproveitados no todo. Quase todos os dias tocavam, acompanhados principalmente de Mike Love, dos Beach Boys. Nesse processo de relaxamento muitas músicas foram depuradas ou nasceram. Também foi na Índia que se cristalizou a ideia da formação de uma gravadora e um selo próprio da banda para produzir seu material e investir na indústria musical, que então crescia sem parar. No dia 26 de março, Paul McCartney se cansou. Saiu em silêncio, sem criticar diretamente o Maharishi. Ele e Jane Asher, todavia, estavam convencidos que aquilo tudo era uma enganação e retornaram à Inglaterra. John Lennon & George Harrison desistiriam duas semanas mais tarde, no dia 12 de abril.

Reza a lenda que John Lennon teria flagrado o Maharishi tentando seduzir a atriz Mia Farrow. Antes disso George Harrison já estava insatisfeito com as pregações do guru e alertara Lennon de que estavam sendo enganados. A aventura na Índia chegava ao fim mas deixaria marcas profundas nos sulcos do próximo álbum da banda e na história. Naquele paraíso perdido, às margens do Ganges, nasceram alguns clássicos eternos da história do rock. Antes da partida definitiva dos Beatles de Rishikesh o público assistiu um mini documentário filmado em Bangor mostrando a rotina dos Fab Four na Índia. Um dos melhores momentos mostra os rapazes vestidos com túnicas indianas participando de uma jam session ao lado dos Beach Boys, Donovan e outros.

Na Inglaterra, enquanto eles estavam na India, a EMI se encarregava de soltar no mercado mais um petardo. O compacto com “Lady Madonna” ocupava os primeiros lugares nas paradas e tinha sido lançado para o mundo inteiro. E os Beatles excursionavam virtualmente pela televisão à custa do promo vídeo filmado dias antes deles seguiram para o curso de meditação. As imagens capturadas no estúdio ao som de “Lady Madonna” eram na realidade de outra produção então ainda inédita, “Hey Bulldog”. No dia 16 de Abril, com todos os Beatles de volta ao batente, a Apple Publicity Ltd era firmada e anunciada como a companhia que passaria a cuidar das gravações e interesses musicais da banda.

WNDT, East 46th St, New York City, USA
AND Studio B Rockfeller Center
Tuesday 14 May

O sábado de 11 de maio marcou a primeira viagem de John & Paul juntos desde o derradeiro concerto dos Beatles no Candlestick Park em agosto de 1966. Eles foram para New York na condição de homens de negócios com o propósito de lançar um novo empreendimento, a Apple Corporation. Na chegada instalaram-se no St. Regis Hotel e lá concederam uma histórica entrevista coletiva que foi transmitida ao vivo por emissoras de rádio e gravada por várias redes de televisão. Os melhores momentos foram ao ar nos noticiários da noite. Também falaram ao não menos legendário programa The Tonight Show, da rede NBC, explicando ao apresentador de então (Joe Garagiola, já que o titular Johnny Carson se encontrava em férias) o que vinha a ser a Apple. Vale o registro de que eles não foram aos estúdios da NBC. A entrevista foi gravada num dos ambientes do Rockfeller Center e foi ao ar no dia seguinte, quinze de maio. E poderia ter sido melhor. Garagiola não era um homem do jornalismo, mas o maior e mais famoso jogador de baseball da época. Faltou-lhe traquejo para lidar com o peso dos entrevistados, e muita coisa não foi perguntada.

Ainda no dia 14 John & Paul concordaram em gravar uma longa entrevista para o canal educativo de TV WNDT, transmitida no dia seguinte pelo programa Newsfront. O tema principal foi a criação da nova gravadora. Durante os poucos dias em New York os dois Beatles acabaram não ficando no hotel para evitar o intenso assédio dos fãs. Foram para o apartamento do advogado Nat Weiss, parceiro de Brian Epstein nos negócios da NEMS Enterprises na América. No dia seguinte, mais entrevista. Falaram a Larry Kane, que muito ajudara na divulgação dos Beatles quando da estreia deles na América em 1964. Curiosamente a entrevista gravada jamais foi ao ar e até hoje permanece inédita. Não se sabe se os tapes sobreviveram. No dia seguinte voltam a Londres.

Kenwood Weybridge
Sunday 19 May

Na noite deste dia, John Lennon ainda estava casado com Cynthia. Ela viajou e ele convidou Yoko Ono para uma noite na mansão onde vivia com a esposa. No estúdio caseiro que mantinha no local, Lennon & Ono gravaram um monte de experimentos, colagens, efeitos sonoros ‘avan garde’ e, enfim, um amontoado de sons que resultaria meses mais tarde (29 de novembro) no Unfinished Music No. 1 – Two Virgins. Na mesma noite eles utilizaram uma câmera com timer para fotografarem a eles mesmos nus. As fotos resultariam na polêmica capa do disco. Começava aí a parceria de John & Yoko que duraria até o final da vida dele. Seis meses após essa brincadeira o casamento com Cynthia chegava ao fim.

Studio Two, EMI Studios, London
Thursday 30 May

Neste dia chega às mãos da equipe de George Martin as fitas profissionais gravadas numa máquina de 4 canais (Ampex) pertencente a George Harrison, capturando na íntegra provavelmente o único ensaio completo dos Beatles documentado para a história. O material foi gravado entre os dias vinte e vinte e nove no bangalô que George Harrison mantinha em Esher. Registraram em torno de trinta canções, ou um pouco mais. Nem todas por inteiro. Algumas, como “Happiness is as Warm Gun”, eram então apenas uma idéia. Outras nunca seriam gravadas profissionalmente. As novas canções, todas compostas durante o período em Bangor, seriam a base para o Álbum Branco.

Algumas faixas, na provável ordem em que foram gravadas são as seguintes: “Cry Baby Cry”; “Child of Nature” (na carreira solo de John viraria “Jealous Guy”); “The Continuing Story of Bungallow Bill”; “I’m So Tired”; “Yer Blues”; “Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey”; “What’s the New Mary Jane”; “Revolution”; “While my Guitar Gently Weeps”; “Circles”; “Sour Milk Sea”; “Not Guilty”; “Piggies”; “Julia”; “Blackbird”; “Rocky Racoon”; “Back in the USSR”; “Honey Pie”; “Mother Nature’s Son”; “Ob-La-Di – Ob La Da”; “Junk”; “Dear Prucence” e “Sexy Sadie”. Como essas gravações cairiam na pirataria a partir dos anos oitenta? A resposta remete a um nome, o do engenheiro John Barrett e as famosas fitas cassete que copiou enquanto organizava o catálogo dos Beatles na EMI.

COMEÇAM AS GRAVAÇÕES DO ÁLBUM BRANCO

No dia 14 de maio a EMI recebeu comunicado no qual os Beatles reservavam espaço para sessões de gravação que ocorreriam a partir do dia 30, preferencialmente à noite, de segunda a sexta-feira.

Studio Three, EMI Studios, London
Revolution 1 & Revolution No. 9 session
Thursday 30/31 May

A primeira canção gravada para o novo disco foi “Revolution 1”. Nesse estágio John não definira ainda como gostaria de finalizar esta nova composição. Isso justificaria gravações absolutamente distintas da mesma música. Ambas lançadas. As tentativas iniciais de “Revolution 1” resultaram em diversos efeitos gravados, resultando em 18 takes. A sessão terminou às duas e quarenta da manhã. Quando o take 18 foi fechado ultrapassava dez minutos de duração. A partir dos seis minutos o que se ouve é puro caos, o som de uma revolução, digamos assim, com instrumental atravessando, feedback, improvisações, John alucinado gritando ‘alright’ e Yoko Ono estreando seus sons guturais berrando ‘you become naked’. No dia seguinte Paul e George adicionariam backing vocals. McCartney também regravaria o baixo. A gravação foi obviamente reduzida na mixagem, mas os seis minutos de caos eliminados inspirariam John a montar “Revolution 9”. Após a finalização George Martin imediatamente montou um mix mono.

A sessão seria marcada, entretanto, por um fato que dali em diante se repetiria a exaustão. Yoko Ono estreou no estúdio com os Beatles. E não foi na mera condição de mulher de um dos caras. Ela foi para a linha de frente e nesta mesma noite interferiu no material gravado com opiniões. Ninguém sabia, mas no dia seguinte, e nos subseqüentes, a japonesa permaneceria lá quase o tempo todo, como uma sombra nunca discreta. Até uma cama foi instalada num canto do estúdio para que ela pudesse repousar na longa espera para ir embora com John Lennon após as sessões.

Studio Three, EMI Studios London
Tuesday 4 June
Revolution 1 (at the floor) session

Nesta ocasião os Beatles se reuniram para tentar o take vinte para “Revolution 1”. Foi a famosa ocasião na qual John Lennon gravou deitado ao chão do estúdio numa tentativa de dar à canção o vocal ideal. Entre os experimentos da noite, George Martin e os engenheiros de Abbey Road tentaram alterar a voz de Lennon com efeitos do equipamento de gravação. Paul & George adicionaram um persistente backing vocal onde cantavam “Mama Dada Mama Dama Dada Mama Dada”. Quase ao final dos dez minutos do andamento da nova gravação, Ringo adicionou percussão extra; John um pedal de guitarra, Paul um órgão. E todo o grupo passou um tempo montando tape loops. Nada seria utilizado. George Martin chegou a mixar o take 20 para que John pudesse ouvi-lo em casa, mas a gravação jamais seria lançada.

Studio Three, EMI Studios London
Wednesday, 5/6 June
This is Some Friendly session
Una Setsazionale Intervista Dei Beatles session

Ringo Starr compositor. Depois de iniciada em 1963, a faixa que se chamaria “Don’t Pass me By” chega aos estúdios para ser gravada a sério cinco anos mais tarde. Ringo já tinha o nome definido desde o princípio, mas no dia dessa sessão, por estranhas razões, a canção ganhou um nome provisório. Três takes foram gravados com Paul ao piano e Ringo na bateria. Na mesma noite foram adicionados sons extras que resultaram no take cinco, lançado no Anthology 3. No dia seis a gravação seria bastante modificada.

Paul & Ringo voltaram ao estúdio e retiraram as duas trilhas de contrabaixo que haviam sido gravadas na noite anterior e incluíram dois lead vocals de Ringo. Com a definição da voz, Paul adicionou uma nova gravação do baixo. A canção neste estágio ficou quase pronta, com um canal de áudio livre para novas inclusões. Curiosamente essa foi a primeira sessão para o Álbum Branco em que apenas dois Beatles trabalharam no estúdio.

Nesta mesma noite, todavia, o produtor e apresentador da Rádio BBC Kenny Everett foi a Abbey Road para a gravação de uma entrevista com os Beatles. E ouviu os quatro. A conversa foi totalmente caótica do primeiro ao último segundo. Os Beatles estavam anárquicos, incontroláveis, brincando todo tempo, enquanto Kenny tentava levar a entrevista para o lado da seriedade sem conseguir. Durante a conversa os quatro interrompiam o papo a todo momento para fazer paródia de canções de outros artistas como Beach Boys, Harry Nilssson, Ray Nobles e vários outros. Everett levou ao ar a conversa no programa dele da rádio BBC, promovendo cortes nos trechos mais bagunçados. A Apple faria diferente. Por razões jamais explicadas, prensou a entrevista em um LP promocional e a distribuiu exclusivamente para emissoras de rádio da Itália. O disco, Una Setsazionale Intervista Dei Beatles é uma pequena raridade nascida nas sessões do Álbum Branco.

Studio Three, and Two EMI Studios London
10/20 June Period
Revolution 9/Blackbird session

Nunca antes nenhum dos Beatles deixara o país durante sessões de gravação da banda, mas no dia dez de junho aconteceu. George & Ringo embarcaram para os EUA, o que resultou no cancelamento de sessões conjuntas. John trabalhou sozinho no estúdio 3 em Revolution 9, apoiado por Yoko. Usou incontáveis gravações experimentais de seu arquivo pessoal e da biblioteca de sons da EMI. Paul trabalhou sozinho no estúdio 2 na concepção de “Blackbird”, até mixar um mono master. Estava em andamento o individualismo que marcaria para sempre o começo do fim dos Fab Four. George ficaria até o dia 18 nos EUA gravando uma pequena participação no filme Raga, de Ravi Shankar. Aparece numa cena breve, tomando lições de cítara do indiano. A gravação total durou trinta minutos, mas o filme aproveita pouco mais de um minuto. A trilha sonora seria editada em Abbey Road com supervisão pessoal de George. Ringo Starr não fez nada na América, foi apenas passear.

Vale o registro de que nessa data Paul McCartney também se dedicou a descobrir talentos. Um deles, Mary Hopkin, cujo primeiro álbum seria lançado pela Apple. No dia 11 de junho começaram as gravações de um filme promocional da gravadora dos Beatles capturado em cores. Paul aparece tocando “Blackbird” ao violão. Diversos artistas foram filmados gravando. A produção também reservou espaço para filmar Alex Mardas (Magic Alex) e suas engenhocas sem a menor utilidade prática. O filme dirigido por Tony Bramwell seria mostrado apenas três vezes. Trechos dele aparecem nos capítulos finais da série Anthology.

Studios Three,Two, One, EMI Studios London
Thursday 20 June
number 9… number 9… number 9…

Excitadíssimo, John Lennon ocupou os três estúdios de Abbey Road para gravar “Revolution 9”. E convocou empregados da EMI em diversas salas para brincarem com gravadores, usando lápis para encostar e afastar as fitas que passavam pelos cabeçotes, criando efeitos sonoros distintos e estranhos. O próprio John sentou-se ao console principal do estúdio para capturar o resultado final. Nesta data o efeito sonoro mais famoso de “Revolution 9” seria adicionado: o famoso ‘number 9, number 9, number 9’. A gravação foi retirada do arquivo sonoro da EMI e provém da Real Academia de Música. George Harrison participaria das gravações nesta ocasião, inserindo voz juntamente com John e Yoko.

Studio Two, EMI Studios London
21/25 June Period

“Revolution 1” e “Revolution 9” ficam prontas com a adição de mais alguns overdubs e são mixadas em mono e estéreo. George Martin convoca os músicos Derek Watkins & Freddy Clayton para tocar trumpetes; Don Lang; Rex Morris; J. Power e Bill Povey para tocar trombones. O som deles foi incluído na mixagem final de “Revolution 1”, mas – como de praxe – eles não receberam créditos na ficha técnica que seria publicada com o futuro álbum. Com Paul ausente dos estúdios por conta de uma viagem aos EUA, quem trabalhou sozinho no dia 25 foi George Harrison, acompanhando o segundo dia de gravações de “Sour Milk Sea”, composição de sua autoria entregue para o inglês Jackye Lomax gravar.

Studio Two, EMi Studios London
26/27 June Period
Everybody’s Got Something to Hide Except me and My Monkey session

Com os quatro Beatles de volta aos estúdios, começa a nascer uma nova composição de John Lennon, “Everybody’s Got Something to Hide Except me and my Monkey”. Eles inicialmente gravaram (e depois apagaram) os ensaios dessa nova composição. No dia seguinte, sete takes seriam produzidos.

Studio Two, EMi Studios London
Friday, 28 June
Good Night session

John Lennon chega aos estúdios com uma balada, “Good Night”. Na realidade, “Good Night” foi uma canção de ninar composta para o filho Julian, que então tinha cinco anos. A primeira tentativa de gravá-la resultou em sessões que terminariam às quatro e meia da manhã. John atuou forte na produção, porque tinha em mente que a canção deveria ser gravada por Ringo, e foi ele quem dirigiu o baterista nesta noite para alcançar a vocalização. Boa parte da sessão foi ocupada por ensaios de John ao violão e Ringo cantando. Nem sempre esse material era gravado, infelizmente.

Studio Two, EMi Studios London
Monday/Tuesday 1 and 2 July

“Everybody’s Got Something to Except Me and My Monkey” ganha uma nova gravação do contrabaixo, feita por Paul, enquanto John grava o vocal definitivo. No dia seguinte, após a gravação de um novo vocal de Ringo em “Good Night”, George Martin providencia uma cópia da gravação para ser ouvida pelos músicos da orquestra e coral que contribuiriam com overdubs para o take.

Studio Two, EMi Studios London
Wednesday 3 July
Ob La Di Ob La Da session

Uma noite difícil em Abbey Road. A nova composição de Paul deu trabalho e criou um clima de tensão no estúdio pelas dificuldades enfrentadas em sua primeira tentativa de gravação. Esta primeira sessão iniciada às oito da noite estendeu-se até as três e quinze da madrugada, resultando em uma gravação original, duas regravações e a produção de sete takes rítmicos feitos por Ringo. No dia seguinte (4) John e George adicionariam vocais e Paul gravaria um novo lead vocal (que ainda não seria o definitivo). No dia cinco “Ob La Di Ob La Da” ganharia muitos overdubs. Músicos extras foram arregimentados para gravar saxes e conga drums. Paul dirigiu as ações e ainda regravou o baixo.

Studio Two, EMi Studios London
Monday 8 July

Mais pós-produção em “Ob La Di Ob La Da”, ocupando os quatro Beatles das cinco da tarde às três da manhã. Pairava no ar um indisfarçável descontentamento de George Harrison com o tempo que se estava dedicando à mesma canção. Mais 12 rhythm tracks foram produzidos, incluindo-se o piano tocado por John Lennon na introdução que foi definido para a mixagem final.

Studio Three, EMi Studios London
Tuesday 9 July

Paul McCartney ainda não estava satisfeito com “Ob La Di Ob La Da” e novas gravações seriam feitas: overdubs de palmas, backing vocals e percussão adicional. Tudo feito por Paul. Consta que durante as sessões para “Ob La Di Ob La Da” teria começado a desavença com Ringo, ou seja, a insatisfação de Paul com a forma como ele estava tocando. A música nessa fase já contava com vinte e dois takes. George & John estavam mais preocupados com o próximo single da banda. Rejeitaram a proposta de inclusão de “Revolution 1” por acharem que era necessário uma faixa mais forte. Daí surgiria a idéia de regravar “Revolution” com uma pegada mais acelerada, mais rocker para aquele que seria o primeiro disco da banda com o selo Apple, um compacto.

Studio Three, EMi Studios London
Wednesday 10 July
Revolution (second version) session

Pausa nas gravações do Álbum Branco. Numa sessão histórica iniciada às sete da noite e estendendo-se à uma e meia da manhã eles gravaram a nova versão de “Revolution”. Ringo Starr trabalhou pesado nas gravações da sessão rítmica. O engenheiro Richard Lush ressalta o ambiente de entrosamento na sessão, “um clima verdadeiramente excitante, rock and roll”, diria ele anos mais tarde ao rememorar o trabalho em um livro lançado em 2005 contando detalhes técnicos das gravações dos Beatles. Até essa ocasião o take quinze foi considerado ‘o melhor’ por John Lennon.

Studio Three, EMi Studios London
Thursday 11 July

Com o estúdio dois ocupado por outros artistas, os Beatles continuavam no estúdio três. A noite foi dedicada a overdubs para “Revolution”. Paul regravou o baixo. Para o piano foi chamado um dos melhores músicos de estúdio de então, Nicky Hopkins. Pelo excelente (e definitivo) trabalho que realizou, recebeu apenas 6,50 libras, e como de praxe não seria creditado no disco. Com o trabalho em “Revolution” praticamente concluído, a banda voltou-se para novos overdubs em “Ob La Di Ob La Da”.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 12 July

“Don’t Pass me By”, a primeira faixa composta por Ringo Starr, é finalizada com a inclusão de um violino e a regravação do baixo e do piano. George Martin monta um mix mono do take final.

Studio Two, EMi Studios London
Monday 15 July
Cry Baby Cry rehearsal session

John & Paul começam sozinhos a primeira etapa do trabalho no estúdio. “Revolution” é finalizada. Lennon grava a lead guitar definitiva. Imediatamente George Martin monta o mix em mono. Paul insiste em “Ob La Di Ob La Da” e regrava o lead vocal. Com os demais presentes os Beatles começam às nove da noite uma longa sessão de ensaios dedicada a “Cry Baby Cry” e se estendem até as três da manhã. Pelo menos trinta minutos de material desses ensaios foi gravado profissionalmente e jamais utilizado.

Studio Two, EMi Studios London
Tuesday 16 July
Cry Baby Cry session

Uma noite dedicada à gravação da composição de John Lennon. Dez takes são produzidos. Na mesma noite começa a sessão de overdubs, quando George Martin grava um ‘harmonium’ e John um piano. A noite acabaria registrando uma baixa importante. O engenheiro Geoff Emerick anunciou que estava saindo. Motivo: desentendimentos constantes com os Beatles. O clima nas sessões continuava difícil na medida em que o trabalho avançava. Havia de um lado a intransigência de Paul, a impaciência de George e a interferência constante de Yoko Ono. “Era uma atmosfera cada vez mais carregada, sem o clima dos velhos tempos, difícil para trabalhar”, diz Geoff Emerick em seu livro de memórias, Here There and Everywhere, lançado em 2007.

Yellow Submarine Movie World Premiere
London Pavillion, London
Thursday 17 July

Não houve sessões. Neste dia Londres parou para a premiére do desenho animado Yellow Sumarine, evento que contou com a presença dos Beatles no London Pavillion e uma multidão de fãs. Imagens clássicas da chegada dos Fab Four ao local e o registro de entrevistas concedidas pelos quatro correriam o mundo.

Studio Two, EMi Studios London
Thursday 18 July
Helter Skelter – 27 Minutos (session)

Neste dia, numa rara sessão iniciada às duas e meia da tarde estendendo-se até as nove da noite os Beatles completaram “Cry Baby Cry”. A música ganhou um novo lead vocal de John, backing vocals e overdubs de um harmonium, tamborim e efeitos sonoros. Após uma pausa para comer alguma coisa os quatro se entregaram a uma histórica gravação. Das dez e meia da noite às três e meia da manhã tentaram uma nova composição de Paul, “Helter Skelter” e produziram três longas versões de ensaio. Detalhe: a gravação que entraria no Álbum Branco não aproveitaria nada do material ensaiado nesta ocasião. O primeiro take gravado terminou com 10 minutos e 40 segundos. O segundo durou 12 minutos e 35 segundos. O terceiro foi uma gravação épica de 27 minutos e 11 segundos – a mais longa de todas as gravações dos Beatles.

Neste último take eles se demoram em longas passagens instrumentais com bateria, baixo, lead e rhythm guitars e vocais de Paul. É possível que o andamento seja no estilo do take lançado no Anthology Três e que nada mais é que uma versão do take dois reduzido em 1995 por George Martin para seis minutos. Essa longa versão de “Helter Skelter” permanece inédita, inclusive na pirataria, e povoa a imaginação de fãs mundo afora.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 19 July
Sexy Sadie session

Na noite em que mais uma canção de John foi gravada profissionalmente, mudanças aconteceram. A música que se chamava provisoriamente Maharishi’s Song teve a letra levemente refeita e o título modificado para “Sexy Sadie”, visando evitar problemas que viessem resultar num processo judicial. Para deixar clara sua desilusão com o guru da Meditação Transcendental, John escolheu uma expressão com as mesmas quatro sílabas do nome do Yogi. A sessão foi longa, iniciou às sete e meia da noite e seguiu até as quatro da madrugada, quando vinte e um takes de ensaio foram produzidos, alguns com oito minutos de duração. Esse material, profissionalmente gravado, também permanece inédito.

Studio One, EMi Studios London
Monday 22 July
Outra Good Night

George Martin recebeu uma orquestra de vinte e seis músicos para gravar os overdubs que seriam utilizados em “Good Night”. Por essa razão o trabalho da noite se concentrou no maior dos estúdios do complexo de Abbey Road. Nem a EMi possui nos arquivos os nomes dos músicos que trabalharam na gravação, mas o naipe de instrumentos utilizados incluiu: doze violinos; três violas; três cellos; três harpas; uma flauta; e ainda um clarinete; uma trombeta; um vibrafone e um baixo acústico. Na ocasião a banda tomou a decisão de regravar “Good Night”, dispensando todo o material anteriormente produzido. A orquestra foi gravada primeiro – em doze takes. Logo depois foi a vez do coral Mike Sammes Singers, formado por oito pessoas. Eles acompanharam fazendo backings ao vivo na regravação do lead vocal de Ringo Starr com supervisão direta de John Lennon.

Studio Two, EMi Studios London
Tuesday 23 July

“Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey” é finalizada após um lead vocal definitivo de John. Também foram adicionados backing vocals e palmas. George Martin aproveitou para produzir mixes mono desta gravação e de “Good Night”.

Studio Two, EMi Studios London
Thursday 25 July
While my Guitar Gently Weeps session

Aqui e ali demonstrando sua impaciência, George Harrison passara quase dois meses esperando pelo momento de iniciar as gravações de seu material. Nessa noite, sozinho nos estúdios, gravou profissionalmente a versão acústica de “While my Guitar Gently Weeps”. No período a faixa incluia um verso que não entraria no take lançado comercialmente. Das sete da noite às três e quinze da manhã Harrison trabalhou nos estúdios. Um dos takes finalizados incluiu um overdub de órgão. Duas fitas de rolo com as gravações por ele consideradas como um ensaio foram levadas para estudar em casa. Resta saber se esta fita foi preservada, e se nos arquivos da EMI existiriam outros takes da sessão acústica de “While my Guitar Gently Weeps”.

Studio Two, EMi Studios London
Tuesday 30 July
Hey Jude Rehearsal/Recording Session

Data histórica. Os Beatles no estúdio para a gravação da faixa que seria lançada como lado A do primeiro disco da Apple. Das sete e meia da noite às três e meia da manhã eles ensaiaram e gravaram o material produzido, mas a intenção do grupo não era finalizar nada, mas basicamente ensaiar a nova canção. George Martin chegou a montar um mix mono do take vinte e cinco. Nesta noite, todavia, o propósito da gravação era outro. Os Beatles foram filmados pela equipe do National Music Council of Great Britain, órgão com quem haviam concordado cooperar para um documentário que pretendia revelar as diversas formas da produção musical do povo inglês. O Estúdio Dois de Abbey Road foi preparado com iluminação especial e distribuição de câmeras em pontos estratégicos para flagrar os Beatles tocando. O produtor James Archibald gravou muitas tomadas, o que forçou o grupo a tocar “Hey Jude” exaustivamente.

No futuro o material seria exibido nos cinemas da Inglaterra, em outubro de 1969. Virou um filme chamado Music! A participação total dos Beatles dura em torno de cinco minutos. A gravação de “Hey Jude” que aparece na produção é o take nove que só incluía piano, bateria e violão. Os Beatles também aparecem conversando, brincando e ensaiando. George Harrison não participa da música nesse take. Por essa razão ele é filmado na mesa de som sentado entre George Martin e Ken Scott. Nos EUA, ‘Music’ só chegaria aos cinemas em Fevereiro de 1970. Cenas nunca vistas dessas gravações – e com imagem espetacular – foram exibidas durante a série Anthology.

Trident Studios, St. Anne’c Court – London
Wednesday 31 July

Com os três estúdios de Abbey Road ocupados neste dia os Beatles e seu staff se mudaram para o Trident Studios, alugado especialmente para a ocasião. Os rapazes estavam excitados com a possibilidade de utilizar a nova mesa de som de oito canais, tida como revolucionária. Só o Trident possuía o equipamento. Ao chegarem para trabalhar, frustração. O console de oito canais existia sim, mas não fora ligado ainda. Numa sessão quilométrica que durou catorze horas (das oito da noite às quatro da manhã) eles produziram mais quatro takes da sessão rítmica de “Hey Jude”, sendo o primeiro considerado o melhor.

Trident Studios, St. Anne’s Court – London
Thursday 1 August

Mais uma longa sessão (das cinco da tarde às três da manhã) abre o terceiro mês de gravações para o novo disco dos Beatles. Paul gravou overdub de baixo e vocal para “Hey Jude” enquanto os outros contribuíram com backing vocals. A partir das oito da noite George Martin recebeu uma orquestra de trinta e seis músicos que foi contratada para gravar overdubs especiais para “Hey Jude”. Cada um recebeu 25 libras pelo trabalho, mas os nomes dos profissionais sequer foram registrados nas súmulas de gravação da EMI. Os músicos ainda foram convidados a reforçar com suas vozes o coro para ‘nah nah nah nah nah nah nah… Hey Jude’. No dia seguinte a canção seria finalizada com mais alguns overdubs. George Martin na mesma ocasião fez a mixagem estéreo.

Studio Two, EMi Studios London
Wednesday 7 August
Not Guilty session

Os Beatles começaram a trabalhar em Abbey Road mais cedo neste dia – das três da tarde até as quinze para as oito da noite. Quando os rapazes saem para jantar, todo o material produzido no Trident é copiado de tape para tape e “Hey Jude” recebe mixagem mono. Finalizada essa etapa, o tempo é consumido até as cinco e meia da manhã com a primeira sessão dedicada a uma nova composição de George Harrison, “Not Guilty”. Ensaios e gravações foram feitos de maneira inédita. Pela primeira vez desde o começo das gravações dos Beatles uma canção ultrapassa a casa dos cem takes. E pior: para depois não ser lançada, como se sabe. Dos quarenta e seis tracks rítmicos que foram produzidos, somente cinco são completos. Os demais são tentativas com interrupções, discussões e desacertos relativos ao arranjo que George queria para sua música.

Studio Two, EMi Studios London
Thursday 8 August
Hey Jude/Revolution single

George Martin finalizou nesse dia a mixagem mono e estéreo de “Hey Jude” e “Revolution”. Já estava decidido que as duas comporiam o próximo single dos Beatles – o primeiro com a maçã no selo. O lançamento ocorreria no dia 30 de agosto, tornando-se um dos maiores êxitos da história da indústria fonográfica. Vendeu oito milhões de cópias. Hey Jude também se tornaria a canção dos Beatles a passar mais tempo em primeiro lugar nas paradas de sucessos, nada menos que nove semanas. Um recorde. Numa sessão que durou doze horas a banda trabalhou novamente em “Not Guilty”. O material produzido a partir do take dez terminou no take noventa e nove, marcado como o melhor. A faixa ainda renderia sessões de gravação nos dias nove e doze de agosto.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 9 August
Yer Blues session

Os Beatles trabalharam das sete e meia da noite às duas e meia da manhã numa nova composição de John. A parte rítmica foi gravada em catorze takes. Os takes quinze, dezesseis e dezessete seriam considerados para montagem na mesma noite. Partes distintas deles foram editadas ao take catorze, e George Martin ao realizar esse trabalho mixou tudo em quatro canais pela primeira vez, ao contrário do que fazia até então mixando basicamente em dois canais. Há uma edição fácil de perceber na gravação final, que une o take 17 com o final do 16. Ela ocorre aos três minutos e dezessete segundos, seguindo para o fade out.

Studio Two, EMi Studios London
Wednesday 14 August
What’s the New Mary Jane session

A noite começa com Yer Blues ganhando um segundo lead vocal de John Lennon. Foi uma noite difícil para os técnicos em Abbey Road. Apenas John & George trabalharam com Yoko Ono e Mal Evans nesta nova composição. O trabalho estendeu-se das sete e meia da noite às quatro da madrugada e resultou em quatro takes. Yoko agiu como se fosse um maestro e arranjador, opinando, encorajando John Lennon, gravando a própria voz e contribuindo na produção de ruídos. Um mix mono do take quatro ficou pronto na mesma noitada.

Studio Two, EMi Studios London
Thursday 15 August
Rocky Racoon Session

Das sete da noite às três da manhã uma sessão dedicada a uma nova composição de Paul McCartney. George Harrison ficou na sala de mixagem enquanto os outros três prepararam a sessão rítmica em nove takes. John gravou um overdub de harmônica enquanto George Martin tocou um solo de piano estilo honky-tonk. Logo depois John, Paul e George gravaram backing vocals.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 16 August
While my Guitar Gently Weeps (inédita)

Ao contrário do suave take acústico gravado no dia 25 de julho, George gravou catorze tentativas desta nova canção mudando totalmente o arranjo e utilizando guitarra elétrica. Trabalhou das sete da noite às cinco da manhã. Na mesma sessão houve edição do take 14 para abrir espaço na gravação para inclusão de futuros overdubs. O material produzido nesta sessão não seria reaproveitado na gravação final e permanece desconhecido.

Studios Three, Two, EMI Studios, London
Tuesday 20 August
‘Mother’s Nature Son’ session
‘Etecetera’ session
‘Wild Hone Pie’ session

John, Ringo e Paul trabalham em dois estúdios, em projetos distintos. George Martin estava ausente. E George Harrison viajara para a Grécia. Foi gravado um ‘count in’ para a introdução de “Yer Blues” na voz de Ringo (two, three…) e a canção ganhou mixagem final em mono. “Revolution 9” também passou por mixagem estéreo. Todo esse trabalho aconteceu no estúdio três, já que no estúdio dois, Paul McCartney trabalhou sozinho em “Mother’s Nature Son”. A canção ganhou a percussão do tímpano, o overdub de um segundo violão e mais: a bateria foi gravada no corredor de acesso ao estúdio como experiência para alterar o timbre. Dois trompetes e dois trombones também foram gravados na mesma noite por músicos de estúdio especialmente arregimentados.

De acordo com o engenheiro Ken Scott, quando Ringo & John entraram no estúdio dois para ver o que Paul McCartney estava fazendo, o clima ficou tenso. A testemunha diz que ele parou de trabalhar e ficou em silêncio, como se não quisesse que os dois conferissem o que estava gravando. Ken Scott afirma que Ringo & John se sentiram desconfortáveis e foram embora logo em seguida. Paul ficou. Na reta final da longa sessão produziria duas gravações demo. Uma permanece inédita, “Etecetera”. A outra foi “Wild Honey Pie”, com apenas 53 segundos. Antes de voltar para casa com o dia clareando, Paul foi à mesa de som fazer a mixagem mono de “Wild Honey Pie”. “Etecetera” seria abandonada.

Studio Two, EMi Studios London
Wednesday 21 August

“Sexy Sadie” é finalizada nesta noite, após longa sessão que incluiu novas mixagens, a gravação de um novo lead vocal de John (o definitivo), dois sets de backing vocals e percussão. Não há informações seguras de que George Harrison tenha participado, considerando que voltou da Grécia neste dia. Ao final da sessão a gravação foi mixada em mono.

Studio Two, EMi Studios London
Thursday 22 August
Back in the USSR session
Ringo Starr Deixa a Banda

Depois de forte discussão com Paul McCartney no começo da sessão, Ringo Starr resolve abandonar o grupo e vai embora. O clima ficou pesado, embora tenha havido a preocupação de todos os presentes em jurar que o acontecido não vazaria para a imprensa. De fato, nada foi publicado sobre o caso na época. Profundamente irritado, Ringo deixou a Inglaterra no dia seguinte, com o objetivo de esfriar a cabeça e pensar no futuro. O desentendimento entre McCartney & Starr é do conhecimento geral. Determinado cada vez mais a gravar seu próprio material sozinho, Paul chateou Ringo com insistentes cobranças e questionamentos relativos à sua forma de tocar bateria.

Sem Ringo Starr, a sessão teve início e George, Paul e John gravaram os primeiros takes de “Back in the USSR”. Cinco foram produzidos. George ficou na guitarra solo, enquanto John foi para o contrabaixo. Paul fez a bateria. A sessão rítmica terminou às quatro e quarenta da madrugada com a gravação de uma cópia de “Baby You’re a Rich Man”, por razões absolutamente desconhecidas. Paul levou fitas cassete para casa com o resultado da produção realizada nesta ocasião.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 23 August

Enquanto a turma do ‘deixa disso’ (ou seja, Derek Taylor & Neil Aspinall) procuravam mediar o conflito entre Paul e Ringo, “Back in the USSR” é retomada e finalizada. John, George e Paul trabalham das sete da noite às três da manhã. A noite foi marcada por overdubs de percussão e de contrabaixo feitos por John e George. John & Paul adicionaram novas guitarras, Paul incluiu piano e um novo lead vocal e os três resolveram seguir o estilo dos Beach Boys com a adição de palmas. Quando George Martin já concluíra a mixagem do take em mono, surgiu a idéia de uma introdução que criasse um clima diferenciado. O ruído de um avião pousando foi recolhido dos arquivos sonoros de Abbey Road. O som está no volume 17 de uma coleção de efeitos de áudio chamada, Jet and Pistom Engine Aeroplane.

Trident Studios, London
Wednesday 28 August
Dear Prudence session

De volta ao Trident e ainda sem Ringo Starr os Beatles remanescentes se dedicam a uma canção de John. A sessão começou às cinco da tarde e foi até as sete da manhã. Finalmente a máquina de oito canais é utilizada pela banda. Eles se sentiram à vontade para gravar tranquilamente a sessão rítmica aproveitando o dobro de canais disponibilizados – George e John nas guitarras, Paul na bateria. Esta sessão no Trident custou 431 libras à EMI. O estúdio alugado cobrou por tudo: fitas virgens, utilização de seu pessoal, horas extras de ocupação do espaço, etc. O valor foi considerado absurdo para a época, já que Abbey Road cobrava cinco vezes menos, e no caso dos Beatles a utilização dos estúdios era parte do contrato firmado com a EMI. No dia seguinte, no mesmo estúdio, “Dear Prudence” receberia overdubs de contrabaixo feitos por Paul, a voz de John seria dobrada e percussão adicionada. Vale registrar um fato curioso: John McCartney, primo de Paul, apareceu nos estúdios em uma visita de cortesia e acabou participando da gravação dos backing vocals, juntando-se a George Harrison, Jackie Lomax, Mal Evans e Paul.

Trident Studios, London
Friday 30 August

O dia é marcado pela chegada às lojas do single com “Hey Jude”/”Revolution”, o aguardado primeiro lançamento dos Beatles através do selo Apple. A EMI caprichou na publicidade e a cidade de Londres amanheceu cheia de cartazes anunciando o novo disco. Mesma coisa nos jornais do dia. Os Fab Three (Ringo continuava fora da banda) trabalharam das cinco da tarde às onze da noite na mixagem mono e estéreo de “Dear Prudence” com George Martin.

Studio Two, EMi Studios London
Tuesday 3 September
Ringo Starr Volta à Banda
Abbey Road e a Mesa de Oito Canais

Depois de muito esforço despendido por Derek Taylor e Neil Aspinall, além de telefonemas trocados entre os Beatles e Ringo, o baterista aceitou voltar ao grupo. E o retorno foi em grande estilo, considerando-se alguns fatos. O primeiro notado em seu kit Ludwig que foi todo decorado com flores compradas por Paul. Há quem sustente que foi George Harrison que providenciou as flores. Quem transformou a bateria numa espécie de ‘arranjo floral’ foi o sempre prestativo Mal Evans. Num cartão postal Paul escreveu: “você é o maior baterista do mundo”. O segundo fato foi que o desentendimento que ocasionou a breve saída de Ringo do grupo jamais chegou ao conhecimento da mídia da época, somente sendo divulgado anos mais tarde e pelos próprios Beatles. O terceiro é que Ringo Starr voltou num dia em que não havia nada para ele fazer. George Martin saíra de férias no dia anterior, deixando o engenheiro Ken Scott em seu lugar. E não havia gravação marcada para a data. Pelo contrário: o que havia era uma firme determinação de George Harrison, Paul McCartney & John Lennon. Depois de gravarem “Back in the USSR” e “Dear Prudence” com as facilidades da mesa de oito canais do Trident Studios, eles não queriam mais voltar à mesa de quatro canais.

Descobriram, conversando com o engenheiro Francis Thompson, que dava manutenção na aparelhagem de Abbey Road, que a EMI já tinha uma máquina de oito canais lacrada, aguardando ocasião para ser instalada. Consta que os Beatles insistiram em usar o equipamento. O auxiliar de Thompson, Dave Harries concordou em pegar a mesa e colocá-la para funcionar no estúdio dois. E assim foi feito. Apesar de todo prestígio dos Beatles, o técnico Dave Harries quase foi demitido, já que contrariou ordens superiores. O fato é que foi dessa maneira prosaica que os estúdios Abbey Road passaram a oferecer a última geração em mesa de gravação para seus mais famosos contratados. E foi George o primeiro a gravar com o novo equipamento na EMI.

Das sete da noite às três da manhã ele regravou todo o basic track de guitarra solo para o take cinco de “Revolution”. Em cima dessa gravação seria adicionada nova sessão rítmica e vocalização. Tudo isso com vistas à filmagem do promo vídeo para a canção. O esforço de regravação tinha por objetivo escapar da União dos Músicos, que exigia naquele tempo que toda gravação musical exibida na televisão fosse capturada ao vivo. A intenção, como se sabe, era evitar o desemprego dos músicos que tocavam nos programas televisivos. Afinal, o advento do promo vídeo com o áudio original tornava dispensável a permanência de orquestras nos estúdios, como era comum nos primórdios da Televisão.

Twickenham Film Studios
Wednesday 4 September

Havia um fascínio na indústria da música com a popularização da televisão e suas facilidades na segunda metade dos anos sessenta. A invenção do vídeotape permitia aos cantores e grupos estarem em incontáveis lugares ao mesmo tempo mundo afora, bastando para isso ‘mandar a fita excursionar’. Isso efetivamente revolucionou a forma de divulgar música, e os Beatles estavam na ponta de lança desse processo. Quando eles chegaram aos estúdios Twickenham, à uma e meia da tarde do dia quatro de setembro encontraram um set de filmagem preparado especialmente para eles. Michael Lindsay-Hogg (que produzira os clipes para “Rain” & “Paperback Writer”) fora chamado novamente para dirigir. Dois promos filmados em cores foram finalizados, tanto para “Hey Jude” quanto para “Revolution”.

O fato de gravar vídeos para os dois lados do compacto mostrava o peso das canções (o single de dois lados 1), o poder dos Beatles dentro da maior gravadora do mundo, e deixava claro que Paul & John estavam competindo mais uma vez. O promo de “Hey Jude” foi gravado primeiro, num cenário que incluiu uma orquestra com trinta e seis músicos (que nada tocaram) e trezentos extras que foram arregimentados de duas formas: parte foi chamada para participar da gravação entre os passantes da rua em frente. Outros foram convidados por Mal Evans entre os fãs que ficavam o dia de vigília às portas dos estúdios Abbey Road.

O promo de “Hey Jude” terminou com três tentativas. Ao mixá-lo, Michael Lindsay-Hogg eliminou o take dois e montou o clipe com a primeira metade do take um e a última metade do take três. Nas três gravações, Paul McCartney fez o vocal ao vivo para evitar problemas com a União dos Músicos. Todo o resto foi mímica, apesar da presença da orquestra e dos amplificadores dos Beatles com as guitarras plugadas. Olhando-se atentamente o promo montado, é possível observar as diferenças de ação e ângulos de filmagem utilizados por Lindsay-Hogg num e noutro take, embora as edições sejam sutis.

Os dois promos filmados de “Revolution” são curiosos. A começar pelo novo vocal utilizado pela banda. A letra é da versão lenta (“Revolution 1”), que até então não havia sido lançada, e o andamento mais rápido como o da versão do single. O backing track foi pré-gravado na EMI. Oito dias mais tarde, o promo de “Hey Jude” estrearia na televisão. Foi ao ar no Frost On Sunday, pela rede BBC. Para dar a ilusão de que os Beatles estavam no programa, o apresentador David Frost foi aos estúdios Twickenham na tarde do dia quatro de setembro e gravou a introdução contracenando com a banda. A canção instrumental que se ouve chama-se “By George! It’s David Frost Theme” e seu autor é George Martin. No momento em que Frost anuncia os Beatles como a ‘maior banda de casa de chá do mundo’, eles atacam com uma paródia bizarra para “It’s Now or Never”, de Elvis Presley. O público que assistiu Frost on Sunday não viu nada disso. Na montagem final, Michael Lindsay-Hogg eliminou essa seqüência, e então “Hey Jude” começa. Apesar de colorido, o promo foi visto em preto e branco na sua primeira exibição televisiva.

“Revolution” estreou na televisão inglesa bem mais tarde, no dia 19 de setembro, indo ao ar uma única vez no Top of the Pops. Nos Estados Unidos os dois promos estrearam na rede CBS no dia seis de outubro, dentro do programa Smothers Brothers Comedy Hour. Os americanos viram ambos em cores, ao contrário dos ingleses. Um mix alternativo do promo de “Hey Jude” com a inclusão da paródia a It’s Now or Never chegou a ir ao ar de maneira esparsa em algumas emissoras. O trabalho de gravação dos dois vídeos marcou a volta de Ringo Starr aos Beatles.

Studio Two, EMi Studios London
Thursday 5 September
While my Guitar Gently Weeps session

“While my Guitar Gently Weeps” ocupou a banda a partir do take 16, entre as sete da noite e as três e quarenta e cinco da manhã. George adicionou dois lead vocals separados e uma nova trilha de guitarra. Ringo gravou maracas e bateria. Ao ouvir o resultado, George não gostou e resolveu fazer tudo de novo. Foi do take 17 ao 44 regravando todo o basic track que incluiu bateria, violão e vocal guia (George) lead guitar (John) piano e órgão (Paul). Ken Scott dirigiu a sessão, na ausência de George Martin. O take 25 foi marcado como ‘melhor’, mas George Harrison deixou os estúdios com o dia amanhecendo – insatisfeito com o resultado até ali.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 6 September
Eric Clapton em Abbey Road

O guitarrista Eric Clapton chegou aos estúdios Abbey Road um pouco antes das sete da noite e trabalhou com os Beatles pela primeira vez na história. Até então nenhum músico tão afamado havia participado de uma gravação efetiva com a banda. Mas o que ele foi fazer lá mesmo? George Harrison estava insatisfeito com o empenho de John Lennon & Paul McCartney em sua composição. Na noite anterior, takes inéditos até a data foram tentados com John Lennon na guitarra líder, com resultados insatisfatórios. A solução encontrada por Harrison foi trazer um amigo para as sessões e Clapton foi chamado. Usou uma guitarra Gibson modelo Les Paul para gravar o soberbo solo que se ouve na versão que saiu no Álbum Branco. De acordo com Clapton, havia um clima de tensão no ar, e ele próprio teria demonstrado certo desconforto em gravar com a banda mais famosa do mundo. O fato é que Clapton mandou ver, definindo a guitarra solo que faltava para a canção.

Os demais produziram vários outros overdubs. Paul gravou um fuzz bass; George registrou um órgão; Ringo adicionou percussão. Backing vocals também foram gravados. Na sala de controle, Ken Scott foi o homem que registrou a gravação que entraria para a história. Ao final da sessão, Eric Clapton deu a George Harrison a Les Paul que utilizou e foi embora. Como de praxe, a participação do guitarrista não seria creditada na ficha técnica do Álbum Branco, mas essa participação resultaria em mais um indício das tensões e dificuldades de entrosamento que marcaram com esse disco duplo o início do fim dos Beatles.

Studio Two, EMi Studios London
Monday 9 September

Chris Thomas só tinha vinte e um anos em 1968. Sua experiência nos estúdios de gravação era como estagiário de George Martin. Nesta noite, todavia, ele foi chamado para acompanhar uma gravação dos Beatles, já que ficara acertado que ele substituiria o produtor no período das férias deste, caso a banda necessitasse. Thomas se tornaria no futuro um dos mais brilhantes produtores musicais do mercado, mas nesta noite se limitou a disparar e pausar os gravadores enquanto Paul McCartney e os demais tocavam uma sessão inédita e algo bizarra. Eles trabalharam das sete da noite às duas e meia da manhã numa regravação de “Helter Skelter”. O propósito era criar um rock selvagem, o que levou à mudança do andamento das gravações anteriores.

Vinte e um takes foram produzidos apresentando John Lennon no contrabaixo, e tocando de maneira desastrosa um saxofone. Mal Evans também participou adicionando um trompete de forma bastante amadora. Foram gravadas duas ‘lead guitars’, bateria pesada, piano e muita distorção produzida por John & George com suas guitarras. Quase ao final da sessão, Paul gravou um lead vocal irado, enquanto George Harrison circulava pelo estúdio utilizando na cabeça (como um chapéu) um cinzeiro cheio de cigarros acesos. “Foi uma noite verdadeiramente louca”, diria Chris Thomas algum tempo mais tarde. No dia seguinte todo o material dessa sessão passaria por diversos overdubs.

Studio Two, EMi Studios London
Wednesday 11 September
Glass Onion session

A sessão que começou às sete da noite e foi até as três e meia da manhã foi marcada pela gravação de uma nova composição de John Lennon cuja letra faz referências a “Strawberry Fields Forever”, “I Am the Walrus”, “Lady Madonna”, “The Fool on the Hill” e “Fixing a Hole”. A sessão contabilizou 34 takes sendo o 33 marcado como o ‘melhor’. A faixa ainda estava em seu estágio inicial. Nos dias subseqüentes John sozinho registraria um novo vocal e adicionaria percussão, tocando um tamborim (12/09). No dia 13 seria gravada uma nova bateria e um piano.

Studio Two, EMi Studios London
Monday 16 September
‘I Will’ session
‘Title Line’ session

George Harrison não participou da noitada de sessões para esta nova composição de Paul. Os trabalhos tiveram início às sete da noite e se estenderam até as três da madrugada. Sessenta e sete takes foram produzidos, com Ringo Starr nas maracas, Paul ao vocal e violão e John Lennon fazendo percussão com pedaços de madeira e metal. Na mesma ocasião eles gravaram “Can You Take me Back”, faixa que até então não tinha título e que McCartney simplesmente cantava como se fizesse parte de “I Will”. A gravação inicial foi capturada na máquina de quatro canais e em seguida copiada para a de oito com o objetivo de abrir espaço para futuros overdubs. A sessão ainda reservaria espaço para mudanças em “Glass Onion”. Um trecho em que se fazia paródia com uma estrofe de “The Fool on the Hill” foi eliminado.

Das duas e meia às cinco e meia da manhã, os estúdios foram usados para a montagem de um estranho mix. Todas as gravações dos Beatles de 1962 até a data tiveram os títulos copiados para uma fita à parte. Pacientemente cada canção foi tocada. Quando os Beatles cantavam o título, esse trecho era gravado para outra fita. E assim foi feito com todas as músicas em que se menciona o título ao longo da letra. Cinco fitas foram montadas. A primeira tem vinte títulos, a segunda vinte e sete (gravada em 17/09) a terceira tem mais trinta títulos (gravada em 23/09) e a quarta tem mais 24 títulos (gravação 27/09). Até hoje pairam dúvidas dos propósitos dessa curiosa produção. Há quem diga que a montagem foi feita para inclusão em “Revolution 9”, mas não há informação segura. O material editado por Ken Scott consta da livraria de fitas utilizadas para as sessões do Álbum Branco nos arquivos da EMI. Scott identificou o material escrevendo nas caixas: “Title Line”.

Studio Two, EMi Studios London
Tuesday 17 September

Paul trabalha sozinho nos estúdios e finaliza “I Will” regravando backing vocal e um segundo violão. Na mesma noite (sessão longa, iniciada às sete horas e encerrada às cinco da manhã do dia seguinte), “Helter Skelter” é mixada em mono e tem o tempo reduzido para pouco mais de três minutos. ” Cry Baby Cry”, originalmente gravada em quatro canais, é transferida para a máquina de oito, visando a inclusão de futuros overdubs.

Studio Two, EMi Studios London
Wednesday 18 September
The Girl Can’t Help It session movie
Birthday session

A casa de Paul McCartney na Cavendish Avenue, proximidades de Abbey Road, possuía uma sala especialmente projetada para assistir televisão. E filmes. Foi lá que ele reuniu os Beatles para assistir The Girl Can’t Help It. O filme com a exuberante Jane Mansfield (então apontada como sucessora de Marilyn Monroe e Brigitte Bardot) é um clássico do rock and roll que inclui participações históricas de Little Richard, Eddie Cochran, Fats Domino, Gene Vincent entre outros heróis musicais de John, Paul, George e Ringo. Antes, trabalhando sozinho em Abbey Road (desde as cinco da tarde), Paul produziu todo o ‘backing track’ de sua nova composição, “Birthday”. Os outros chegaram pouco depois e trabalharam a canção em vinte takes, se retirando às oito e meia para a casa de Paul com o objetivo de jantar e acompanhar a primeira exibição de ‘The Girl Can’ty Help It’ pela TV (BBC 2).

O filme energizou a todos. Eles retornaram aos estúdios às onze da noite e retomaram “Birthday” numa sessão em clima de festa que incluiu a participação das mulheres deles fazendo backing vocals. A nova composição foi finalizada na máquina de quatro canais e imediatamente copiada para a de oito. Começou então a sessão de overdubs onde gravaram tamborim, palmas (mal Evans), backing vocal (Pattie & Yoko), lead vocal de Paul e backing de John. Todo o material foi mixado na mesma noite e finalizado (às cinco da manhã) num ritmo dos velhos tempos, quase como em Please Please Me. É possível que tenha sido a mais alegre e festiva de todas as sessões para o Álbum Branco.

Studios Two/One Abbey Road Studios
Piggies session

Dia marcado pelo começo dos trabalhos em “Piggies”, uma composição de George Harrison com forte crítica social embutida na letra. Foi necessário trabalhar no Estúdio Um por conta de um pequeno desentendimento entre Chris Thomas e o engenheiro Ken Scott. Chris queria retirar do Estúdio Dois, um ‘harpsichord’ bem antigo montado para a gravação de uma peça clássica. Scott vetou a idéia e pintou um impasse. George Harrison sugeriu que Chris Thomas tocasse o harpsichord em sua canção, considerando o fato de o produtor ter tomado lições no instrumento quando criança. Onze takes acabaram sendo produzidos. Óbvio que o crédito a Chris Thomas não seria dado na ficha técnica do futuro Álbum Branco. A EMI pagou nove libras pelo serviço dele.

A noite ficaria marcada por outros fatos. George Harrison mostrou a Chris Thomas uma nova composição em que estava trabalhando, “Something”. Chris sugeriu que ele finalizasse a composição e repassasse para Jackie Lomax gravar. Também sugeriu entregar a peça a Joe Cocker. Nesta mesma época Paul começou a demonstrar aos companheiros em brincadeiras e jams dentro dos estúdios, duas novas composições – inacabadas, ainda sem título, e em fase de maturação. No futuro elas viriam a se chamar “The Long and Winding Road” e “Let it Be”.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 20 September

“Piggies” foi finalizada na noite desta sessão em seu take doze, quando George Harrison registrou o vocal definitivo. Sons de grunhidos de porcos foram inseridos por idéia de John Lennon. Ele mesmo selecionou os ruídos nos arquivos sonoros de Abbey Road.

Studio Two, EMi Studios London
‘Happiness is a Warm Gun in Your Hand’ session

A primeira redução enfrentada pela nova composição de John Lennon foi no título. Quarenta e cinco takes foram produzidos entre sete da noite e três da manhã. John mais tarde revelaria que esta composição era o resultado de três canções distintas – nenhuma ele conseguiu concluir, então juntou os pedaços e montou esta. Paul e Ringo gravaram o baixo e a bateria. John gravou um vocal guia e a guitarra. George utilizou o efeito fuzz para fazer sua lead guitar. No dia seguinte (24) eles produziriam novos takes. Para efeito de mixagem na mesa de oito canais optaram por ‘juntar’ a primeira metade do take 53 com a segunda do take 65.

No dia 25, “Happiness is a Warm Gun” foi finalizada numa quilométrica sessão que se estendeu das sete e meia da noite às cinco da manhã. Na ocasião foram gravadas as espetaculares vocalizações onde eles cantam ‘bang bang shoot shoot’ e os backing vocals de John, George & Paul. A fantástica harmonia vocal dos três usada em gravações anteriores como “This Boy”, “If I Fell” e “Yes it Is” reaparecia portanto. Também foram gravados órgão e piano, e – por incrível que pareça – o som de uma tuba, recurso que acabou ‘deletado’ na mixagem. Ringo regravou partes da percussão e Paul refez o baixo. Quando os Beatles foram embora os técnicos ainda trabalharam até as seis e quinze da manhã para mixar em mono a nova composição de Lennon.

Studio Two, EMi Studios London
Thursday 26 September

George Martin retorna das férias e recebe da equipe de produção alguns acetatos com gravações finalizadas e mixadas no período de ausência dele. Sozinho nos estúdios, John resolveu ‘inventar’ em cima de um dos takes de “Glass Onion”, mixando bizarros efeitos sonoros como sons da nota de um órgão, telefone tocando e até a narração de um gol na voz do então famoso locutor esportivo Kenneth Wolstenholme, ao mesmo tempo em que se ouvia o som do vidro de uma janela quebrando. Ao escutar, George Martin sugeriu um overdub de cordas… e a gravação foi encostada. Vale o registro de que esse take ganharia a luz em 1996 quando foi lançado o terceiro volume da série Anthology.

Trident Studios, London
Thrusday 1 October
Honey Pie session

Os Beatles retornam ao Trident para que a EMI complete a instalação dos novos equipamentos que incluem a então revolucionária mesa de oito canais. Numa sessão que se estende das quatro da tarde às três da manhã eles trabalham em “Honey Pie”, uma composição de Paul McCartney com elementos do jazz e fox trot. Quando o trabalho terminou, dois rolos de fitas estavam ocupados com gravações do ‘basic track’. Paul tocou piano; George baixo; Ringo bateria e John guitarra elétrica. O take um foi ‘mixado’ provisoriamente em mono, marcado como ‘o melhor’ e entregue a George Martin para overdubs. Na noite seguinte Paul voltou sozinho ao Trident e regravou o vocal e a lead guitar.

Trident Studios, London
Thursday 3 October
Savoy Truffle session

Paul, George e Ringo trabalharam das quatro da tarde às duas e meia da manhã na nova composição de George, inspirada numa caixa de chocolates encontrada na mesa da sala de estar de Eric Clapton. ‘Machintosh’s Good News Boxed Selection’ era uma tradicional marca de chocolates finos na Inglaterra. George abriu a caixa e foi consumindo os chocolates enquanto aguardava o amigo Eric. A cada um que abria um nome marcante: ‘creme tangerine’, ‘ginger sling’, ‘pineapple hearts’, ‘coffee desert’… daí surgiram as idéias musicais para “Savoy Truffle”. Nessa noite foi gravado um take básico de baixo, bateria e guitarra. John Lennon não apareceu.

Trident Studios, London
Friday 4 October
Martha my Dear session

A nova e clássica composição de Paul McCartney começou e quase foi finalizada numa das mais longas sessões de gravação do período. Começou às quatro da tarde e foi até quatro e meia da manhã. Somente Paul trabalhou, gravando o take definitivo ao piano. Ele também gravou a bateria e um vocal guia. A gravação foi utilizada para familiarizar os catorze músicos de orquestra arregimentados por George Martin com a composição. Eles então gravaram overdubs de metais, incluindo tuba, violinos, violas, cellos, trumpetes, trombone e outros. Num intervalo das gravações, entre seis e nove da noite, outros sete músicos foram contratados para gravar overdubs para “Honey Pie”. Entre meia-noite e quatro e meia da manhã Paul gravou a voz principal e palmas para “Martha my Dear”. E também registrou a marcante frase que seria editada em “Honey Pie”: “now she’s hit the big time”.

Trident Studios, London
Saturday 5 October

É a vez de George Harrison trabalhar sozinho no Trident. Ele grava o vocal de “Savoy Truffe” e trabalha em overdubs para “Martha my Dear”, ocasião em que regrava o baixo e a guitarra elétrica registradas inicialmente por Paul. Na mesma noite as composições “Honey Pie” e “Martha my Dear” são mixadas em mono e estéreo.

Studio Two, EMi Studios London
Monday 7 October
Long Long Long session

Os Beatles voltam aos estúdios Abbey Road, agora com a nova máquina de oito canais definitivamente montada. Das duas e meia da tarde às sete da noite uma nova composição de George que até então ainda se chamava It’s Been a Long Long Long Time é trabalhada. 67 takes são produzidos, sendo o último considerado o melhor. Coincidência ou não foi mais uma composição de George Harrison sem qualquer participação de John Lennon, nem mesmo nas sessões de overdubs. George ficou no violão e vocal, Ringo na bateria e Paul no órgão. Na mesma sessão os três produzem overdubs. Ringo grava o marcante trecho de bateria, Paul adiciona efeitos sonoros utilizando uma caixa Leslie e uma garrafa de vinho.

Studio Two, EMi Studios London
Tuesday 8 October
I’m So Tired session
The Continuing Story of Bungallow Bill session

Dezesseis horas de sessão. Das quatro da tarde às oito da manhã. “I’m So Tired” e “The Continuing Story of Bungallow Bill”, novas composições de John, foram iniciadas e finalizadas. George e Paul foram os primeiros a chegar para a gravação de overdubs em “Long Long Long”. George adicionou um segundo violão e dobrou os vocais. Paul regravou o baixo. Na seqüência e com todos presentes começou a sessão para “I’m So Tired”. Catorze takes foram produzidos incluindo-se overdubs. “The Continuing Story of Bungallow Bill” iniciou com três takes produzidos onde todos tocaram e gravaram sem seguir uma definição de arranjo. As idéias foram surgindo e sendo registradas. Yoko Ono registrou a linha “not when she look so fierce”, o primeiro e único lead vocal feminino em uma gravação dos Beatles (não confundir com backing vocal). Maureen Starkey, então mulher de Ringo Starr, também estava no estúdio e participou dos vocais de apoio. Overdubs os mais diversos foram gravados, incluindo palmas, efeitos sonoros, vocais e até mesmo um mellotron tocado por Chris Thomas.

Studios Two, One EMi Studios London
Wednesday 9 October
Why Don’t We Do it in the Road session

John não aparece no estúdio no dia de seu aniversário de 28 anos. George & Ringo também não. Das sete da noite às cinco e meia da manhã o trabalho consiste na mixagem mono e estéreo de “Bungallow Bill”. “Long Long Long” ganhou um piano adicionado por Chris Thomas e Paul gravou backing vocals, o que finalizou a canção. Uma cópia do take de “Helter Skelter” com 27 minutos de duração foi produzida para o arquivo pessoal de Paul McCartney.

Enquanto o estúdio dois estava ocupado por Chris Thomas e a equipe de mixagem, Paul McCartney aproveitou que o estúdio um de Abbey Road estava desocupado e seguiu para lá com o engenheiro Ken Townsend. Produziu então cinco takes para “Why Don’t We Do it in the Road”. Registrou ainda overdubs de violão, lead vocal e piano. E uma tosca bateria.

Studios Two, Three EMi Studios London
Thursday 10 October

Reta final das gravações do futuro álbum duplo. Havia canções suficientes para isso e os Beatles acalentavam há tempos o registro de um disco estendido. Das sete da noite às sete e quinze da manhã as faixas “Glass Onion” e “Piggies” receberam os últimos overdubs quando George Martin dirigiu oito músicos de orquestra que gravaram violinos, cellos e violas. As duas, mais “Long Long Long”, foram imediatamente mixadas. Paul usou o final da sessão para completar “Why Don’t We Do It in the Road” adicionando guitarra, vocais, palmas e baixo. A tosca bateria gravada na sessão anterior deu lugar à definitiva, gravada por Ringo.

Studio Two, EMi Studios London
Friday 11 October

“Savoy Truffle” ainda precisava de uns toques finais para a mixagem. Chris Thomas, tido então como o menino prodígio dos estúdios Abbey Road, dirigiu nada menos que seis saxofonistas – dois barítonos e quatro tenores. Enquanto a gravação rolava, George Harrison acompanhava tudo da sala de controle e teve a idéia de distorcer o som dos instrumentos. A sessão se estenderia por mais doze horas para a mixagem mono e estéreo definitiva de “Piggies”, “Don’t Pass me By” e “Why Don’t We Do It in the Road”. No dia seguinte, um sábado, o trabalho de mixagem final em Abbey Road teria seqüência com as faixas “Everybody’s Got Something to Hide Except Me and My Monkey”, “Mother Nature’s son”, “Ob La Di Ob La Da”, “Helter Skelter” (apenas estéreo) e “Long Long Long” (mono).

Studio Two, EMi Studios London
Sunday 13 October
Julia session

A penúltima sessão para o futuro álbum duplo é marcada por uma tocante composição de John Lennon em homenagem à própria mãe. Aquela seria a trigésima segunda e derradeira faixa produzida para o novo disco. John gravou sua única canção verdadeiramente solo no repertório dos Beatles, registrando duas vezes o violão e a voz com assessoria de George Martin. O resto da noite foi tomado pela mixagem mono e estéreo de “Julia”, “Dear Prudence”, “Blackbird”, “Wild Honey Pie” e “Back in the USSR”.

Studio Two, EMi Studios London
Monday 14 October – The Game is Over

Ringo tira duas semanas de férias. Segue para a Sardenha e não comparece aos estúdios para a última sessão do Álbum Branco. Os trabalhos começaram com “Savoy Truffle”, que recebeu um piano elétrico e um órgão gravados por Chris Thomas. George ainda adicionou guitarra e fez a percussão com tamborim e bongôs. John & Paul também não deram as caras em Abbey Road e a sessão foi encerrada com os técnicos fazendo mixagens mono e estéreo para “I Will”, “Birthday”, “Yer Blues”, “Sexy Sadie”, “What’s the New Mary Jane”, “Savoy Truffle”, “While my Guitar Gently Weeps” e “Long Long Long”.

Rooms 41/42 & Studios One, Two, Three EMi Studios London
Wednesday 16 e Thursday 17 October
Em 24 Horas John & Paul Fecham o Álbum Branco

Ringo Starr partira em férias. George Harrison voara para Los Angeles (EUA). Coube a John Lennon, Paul McCartney e George Martin, com apoio dos engenheiros Ken Scott e John Smith decidir a ordem geral das canções no álbum duplo, e o que entraria e ficaria de fora. Aparentemente George havia concordado em não incluir “Not Guilty”, tanto que a canção não recebera mixagem final. Durante vinte e quatro horas toda a produção foi pacientemente escutada. A primeira decisão conjunta foi pela exclusão de “What’s the New Mary Jane” (cujo nome definitivo mais tarde seria “What a Shame Mary Jane Had a Pain to the Party”).

Com trinta números escolhidos foi definido que o disco teria uma sequência de rocks pesados (“Birthday”, “Yer Blues”, “Everybody’s Got Something to Hide Except me and My Monkey” e “Helter Skelter”). Canções com referência a um animal no título ou letra (“Piggies”, “Blackbird”, “Rocky Racoon”) seriam editadas em seqüência do lado B. George Harrison teria direito a uma faixa em cada uma das 4 faces do álbum. Nenhum compositor teria duas canções seguidas no setlist. Também se decidiu que não haveria intervalo entre algumas faixas, casos de “Bungallow Bill” e “While my Guitar Gently Weeps”, “Back in the USSR” e “Dear Prudence”, “Birthday” e “Yer Blues”, seguindo uma idéia iniciada em Sgt. Peppers.

Radio Luxembourg/DJ Tony McArthur
Thursday 21 November

Das sete e meia às nove e meia da noite o Álbum Branco é tocado pela primeira vez numa emissora de rádio. A exclusividade ficou para a famosa Radio Luxemburgo, pertencente ao RTL Group da Alemanha. Esta emissora opera desde 1931 e pertence ao conglomerado de mídia alemão Bertelsmann, que possui 39 emissoras de televisão e 32 estações de rádio em 10 países. Sediada em Luxemburgo, a companhia está presente também na Alemanha, na França, na Bélgica, na Holanda, no Reino Unido, na Austrália, na Espanha, na Hungria, na Croácia e possui companhias de produção nos Estados Unidos. Vale ainda o registro de que uma das principais razões do sucesso desta rádio sempre foi o conteúdo de sua programação. Mas não é só. Foi Luxemburgo o primeiro lugar do mundo a permitir estações comerciais de rádio e TV muito antes de muitos países europeus. Esta flexibilidade permitiu ao grupo RTL transmitir a programação para vizinhos como o Reino Unido, França, Alemanha e Holanda em suas próprias linguagens. Muitos apresentadores de rádio britânicos começaram suas carreiras na edição em língua inglesa da Radio Luxemborg. Portanto o Álbum Branco foi ao ar com exclusividade na emissora de maior peso mundial da época.

O DJ australiano Tony McArthur gravou entrevista com Paul McCartney na casa dele, nas vizinhanças dos estúdios Abbey Road. Durante o especial de duas horas, as novas composições dos Beatles foram comentadas pelo crítico musical Judith Simons, do jornal Daily Express, entremeadas por trechos da gravação feita com Paul detalhando os bastidores das sessões. No dia seguinte as lojas britânicas foram invadidas pelos fãs em busca do novo álbum lançado pelos quatro rapazes de Liverpool.

PANTOMIMA

The Beatles é o nono disco oficial dos Beatles, lançado como álbum duplo em 22 de novembro de 1968.

É popularmente conhecido como “The White Álbum” (Álbum Branco), por não haver nome, e ser apenas um fundo branco com o nome da banda em relevo.

Nas emissoras de rádio a primeira ‘advanced copy’ relacionada ao Álbum Branco foi um estranho compacto simples (mono) distribuído em janeiro de 1969 contendo ‘Ob La Di Ob La Da’ do lado um e ‘Dear Prudence’ do lado dois. Esse fato explica a popularidade de ‘Ob La Di Ob La Da’ em nosso país, indo de encontro ao interesse da matriz da EMI na Inglaterra. No Reino Unido o Álbum Branco foi precedido pelo compacto com Hey Jude/Revolution. Não chegou a ser editado um single com duas de suas trinta faixas para, digamos assim, ‘puxar’ o novo produto.

Causaria furor, todavia, o lançamento brasileiro do Álbum Branco (em fevereiro de 1969, com três meses de atraso em relação à Inglaterra) tanto nas versões mono quanto estereofônica por conta da incrível falha industrial que resultou no defeito de rotação da gravação de Revolution 1. Quando em casa os fãs constatavam a oscilação da rotação (que vai acelerando e reduzindo enquanto a faixa toca) voltavam à casa de discos e solicitavam a troca. Inicialmente os lojistas menos avisados constatavam o ‘defeito’ e realizavam a troca. Mas isso durou pouco. Rapidamente se percebeu que toda a tiragem nacional do Álbum Branco era assim.

A capa foi criada pelo artista pop Richard Hamilton. A idéia foi contrastar a embalagem multicolorida da capa de Sgt. Peppers. O número de série também tem explicação segundo Hamilton: “foi adicionado em nome da situação irônica de uma edição numerada de algo que teria mais de 5 milhões de cópias”.

O Álbum Branco é o único do catálogo original a não trazer foto dos Beatles na capa. Eles estão na face interna e em quatro fotos individuais em cores encartadas como bônus.

Paul McCartney trabalhou como assistente de Hamilton, coletando as fotos que serviram para a montagem do pôster psicodélico. Numa delas ele aparece nu.

O título inicial do álbum era A Doll’s House, mas a banda britânica Family já tinha lançado um LP com nome similar.

A prensagem da capa do disco com o nome The Beatles em alto relevo deu muito trabalho na época, obrigando as gráficas a adaptarem seu equipamento para compor a peça. Em alguns países não foi possível prensar o alto relevo e o nome The Beatles foi escrito em cinza na capa.

Foi o primeiro álbum lançado após a morte de Brian Epstein.

De acordo com a Associação da Indústria de Discos da América, o Álbum Branco foi dezenove vezes disco de platina e o décimo disco mais vendido nos Estados Unidos. Um mês após o lançamento, fechou 1968 com 4 milhões de cópias vendidas no mundo.

Apesar de duplo (e mais caro) o Álbum Branco permaneceu dez anos como o mais vendido de seu formato na história da indústria fonográfica, sendo desbancado em 1978 pela trilha sonora do filme Os Embalos de Sábado a Noite.

O Álbum Branco foi lançado no mesmo dia e mês que o segundo disco dos Beatles, With the Beatles, de 1963.

O Álbum Branco foi o último com a mixagem alternativa mono no Reino Unido. Vinte e nove canções (exceto “Revolution 9”) tem versões de mixagem mono.

Nos EUA, as versões mono já estavam ultrapassadas e o mercado só aceitava os discos em estéreo. Esse álbum foi o primeiro a ser lançado somente em estéreo na América.

O Álbum Branco tem várias versões. As mais importantes, além da original, são as seguintes: edição em vinil branco lançada em 16 de janeiro de 1979. A versão em CD, que saiu no dia 24 de agosto de 1987, e a edição mais charmosa, lançada no dia 23 de novembro de 1998 para comemorar os trinta anos de lançamento. O formato é luxuoso, mini LP, com embalagem que imita em tudo a do vinil original, inclusive com as fotos bônus e o pôster psicodélico. E, claro, a versão ‘remaster’, lançada junto com o resto da coleção dos Beatles, em 2009.

Há diferenças entre uma e outra mixagem. A guitarra solo de Eric Clapton é mais longa na versão em mono. Os sons de porcos em “Piggies”, de pássaro em “Blackbird”, e do avião em “Back in the USSR” surgem em locais diferentes em relação ao disco estéreo.

Charles Manson sustentou ter-se baseado em algumas canções do álbum para justificar a série de assassinatos que praticou. Ele e seus seguidores invadiram casas de pessoas ricas em Los Angeles e cometeram chacinas escrevendo com sangue das vítimas o nome das músicas “Helter Skelter”, “Piggies” e “Blackbird”. Segundo ele, estas músicas previam o apocalipse e uma iminente guerra racial.

Na época do ruidoso julgamento de Manson, juízes da Suprema Corte americana escutaram atentamente o Álbum Branco em busca de entender melhor as ‘alegativas’ do maníaco. Concluíram pela ‘absolvição’ das letras do disco como possíveis incitadoras de atos de violência de qualquer natureza.

ÁLBUM BRANCO NO BRASIL

Ao editar o Álbum Branco em nosso país a EMI Odeon inovou. Foi o primeiro LP dos Beatles que saiu sem o famoso ‘sanduíche’ ou seja, a sobrecapa de plástico transparente que protegia a capa. Eram disponibilizadas duas versões, em mono (mais barata) e estereofônica (mais cara). Também era possível visualizar no interior das lojas, cartazes que informavam que “o disco estéreo tocaria normalmente em seu equipamento monaural”. Óbvio que era uma tentativa de comercializar e popularizar a versão mais cara. Havia uma chiadeira geral dos compradores brasileiros pelo fato de o disco custar quase o dobro de um normal. Os lojistas argumentavam que eram dois LPs enquanto os fãs (naquele tempo não havia órgão de defesa do consumidor) reclamavam com razão que eram dois discos de um único projeto, o que em tese não justificaria o preço dobrado. Os lojistas apresentavam então uma tréplica perfeita, ‘eram os Beatles, os maiores do mundo’.

Nas emissoras de rádio a primeira ‘advanced copy’ relacionada ao Álbum Branco foi um estranho compacto simples (mono) distribuído em janeiro de 1969 contendo “Ob La Di Ob La Da” do lado um e “Dear Prudence” do lado dois. Esse fato explica a popularidade de “Ob La Di Ob La Da” em nosso país, indo de encontro ao interesse da matriz da EMI na Inglaterra. No Reino Unido o Álbum Branco foi precedido pelo compacto com “Hey Jude”/”Revolution”. Não chegou a ser editado um single com duas de suas trinta faixas para, digamos assim, ‘puxar’ o novo produto.

Causaria furor, todavia, o lançamento brasileiro do Álbum Branco (em fevereiro de 1969, com três meses de atraso em relação à Inglaterra) tanto nas versões mono quanto estereofônica por conta da incrível falha industrial que resultou no defeito de rotação da gravação de “Revolution 1”. Quando em casa os fãs constatavam a oscilação da rotação (que vai acelerando e reduzindo enquanto a faixa toca) voltavam à casa de discos e solicitavam a troca. Inicialmente os lojistas menos avisados constatavam o ‘defeito’ e realizavam a troca. Mas isso durou pouco. Rapidamente se percebeu que toda a tiragem nacional do Álbum Branco era assim.

Num mundo sem internet e com a comunicação via satélite engatinhando, foi fácil acreditar que aquilo não era um defeito, mas um ‘efeito’ – ‘coisa típica dos Beatles e de John Lennon, o mais louco dos quatro’, justificavam donos de lojas de discos Brasil afora. O ‘(d)efeito’ só seria sanado com o relançamento total da coleção dos Beatles seguindo o padrão dos discos ingleses, a partir de 1975. Outro defeito da primeira tiragem do Álbum Branco nacional estava no selo. “Don’t Pass me By” era creditada a Lennon-McCartney, e não ao verdadeiro autor, Ringo Starr. No começo dos anos 70 algumas tiragens mono e estéreo do Álbum Branco foram prensadas no país sem o selo Apple.

Por Cláudio Teran

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1 comentário Adicione o seu

  1. depaula disse:

    Faltou dizer de onde vieram essas informações. Há um certo ar e censura e julgamento e podem ter vindo de quem não gostava deles. Sabemos que realmente brigaram, e também se reconciliavam até de forma romântica como a bateria de Ringo coberta de flores, uma ideia de George. O texto, embora reconheça a importância dos Beatles, não vê que realmente Yoko Ono nada sabia de música para estar ali presente. Reclamaram com razão. E explica que o motivo de ser álbum duplo foi pelo ego gigantesco dos meninos. Terá sido? Se foi, tudo bem. Mas para se fazer tal afirmativa é preciso ter certeza. Talvez tenha sido apenas por terem percebido que ficaria bom demais assim. Maravilhoso e inovador, mais uma vez revolucionando o mundo musical. Nem posso pensar no The Beatles com apenas 14 músicas. Seria também bom saber se a Odeon relançou o disco sem defeitos depois. Eu comprei outro em Londres. Os Beatles realmente podiam fazer tudo. Muitos não percebiam as alterações e afirmavam que aquilo era proposital. Só quando voltei de Londres mostrando o original acreditaram em mim. Também tenho vontade de saber se os Beatles ficaram sabendo que a ODEON estragou completamente o lado D de uma obra prima. Agradeço pelo texto. Sempre bom ler sobre eles.

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